quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

[Cinema] Um Táxi Para a Escuridão

Na semana em que Barack Obama assume a presidência dos Estados Unidos da América há um sentimento global - especialmente estadunidense - de virar a página, de olhar pra frente, de recomeçar. Mas por mais que o otimismo seja algo positivo, jamais deve-se esquecer o passado - e é justamente por conta disso que documentários como Um Táxi Para a Escuridão (Taxi to the Dark Side, 2007) são tão relevantes.

O filme de Alex Gibney, que já havia cutucado cascas de ferida em Enron - Os Mais Espertos da Sala, faz um registro de um dos mais lamentáveis momentos da administração de George W. Bush: a denúncia dos abusos praticados nas prisões controladas pelos Estados Unidos fora de seu território.

Os filmes Fantasmas de Abu Ghraib e Procedimento Operacional Padrão já haviam feito exatamente o mesmo. Porém, o vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2008 tem algumas preocupações que o distanciam dos outros. Pra começar, o filme, apesar de condenar claramente a tortura, faz o que todo bom documentário deve fazer, que é buscar os dois lados do problema. Não apenas entrevista presos e jornalistas, mas também os militares e defensores dessas práticas condenadas pelo Acordo de Genebra (oficialmente sancionado pelos EUA). Além disso, o filme também humaniza o problema. Não somos apresentados mais uma vez ao caso de um grupo de carcereiros militares que humilhava, torturava e fotografava seus presos. Já conhecemos bem os acusados. Um Táxi Para a Escuridão já começa nos oferecendo um nome: Dilawar.

Motorista de táxi, sujeito honesto e trabalhador, Dilawar um dia saiu de sua casa no Afeganistão para levar passageiros a uma cidade vizinha. Nunca mais voltou. Foi parado pela polícia militar dos EUA e levado para a prisão de Abu Ghraib, onde foi espancado, pendurado pelos pulsos e privado de sono durante alguns dias. Dilawar não aguentou. Morreu na cadeia sem nunca ter sido acusado de qualquer crime (acredita-se que os militares imaginavam que o taxista tivesse alguma conexão com a Al Qaeda ou o Talebã).

Dilawar, o equivalente individual às tais fábricas de armas químicas que o governo Bush jurava que existiam no Iraque, é apenas um entre tantos em Abu Ghraib que é espancado sem sequer saber os motivos de seu encarceramento. Se a "polícia do mundo" age desse maneira é claro que os Estados Unidos preferem que páginas sejam viradas e o mundo esqueça o caso. Muito pelo contrário: ocorrências como essa precisam ser lembradas, revertidas e cuidadas para que nunca mais ocorram.

Curiosamente, Um Táxi Para a Escuridão - que também estende sua abrangência à prisão de Guantânamo - não sofreu qualquer censura governamental, o que iria radicalmente contra a constituição do país (que só funciona para os seus). A Motion Picture Association of America (MPAA), porém, órgão que classifica os lançamentos de cinema nos EUA, proibiu de circular nos cinemas dos EUA o pôster do documentário. No cartaz, dois oficiais conduzem um preso encapuzado e suas sombras formam as listras da bandeira do país. No comunicado oficial, a MPAA disse que "trata todos os filmes da mesma forma. Anúncios serão vistos por todas as pessoas, inclusive crianças. Se o anúncio não é aconselhável para todas elas, não será aprovado".

Crianças ou não, imagino que seria no mínimo recomendável que elas também se chocassem com certas atitudes do país em que vivem... A família de Dilawar, afinal, teve que lidar com imagens muito piores que a colorida, ainda que dura, arte promocional de um filme.

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