O Amor é Filme



“O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica”
–Lirinha, letra da música “O amor é filme”, do Cordel do Fogo Encantado, trilha do filme Lisbela e o Prisioneiro

Filme: http://www.youtube.com/watch?v=VqwgeZooUmQ&eurl=http://nao2nao1.com.br/o-amor-e-filme/

A Myla me enviou o curta-metragem abaixo (J’Attendrai Le Suivant, de Philippe Orreindy) e me obrigou a escrever sobre como o amor é ficção. Assista e depois continue lendo.

Uma história de amor é como uma obra de arte: totalmente desnecessária, inventada e bela. Desnecessária, pois poderíamos não ter enviado aquele email e continuado com nossa vida tranqüila. Inventada, pois nossa declaração de amor nunca deixa de ser forçada, nunca esconde por completo a fantasia que a sustenta. Bela, porque… bela. Por mais fechados que possamos estar, basta uma música como “C’etait ici”, de Yann Tiersen (que fez a trilha do excelente O fabuloso destino de Amélie Poulain), para nos mostrar que amor e beleza são uma e mesma coisa. Ouça enquanto lê e me diga se discorda. A propósito, conheci o Tiersen pelos ouvidos da Myla.

“Era só um sketch“, o ator diz assim que ela sai do trem. E nós não somos diferentes. Fazemos performances e lançamos nosso charme em todas as direções. Ao contrário do desfecho do curta, tudo o que queremos é ver alguém acreditar em nós, para que nós mesmos acreditemos também. O brilho no outro confirma a fantasia que construímos e nos permite brilhar também. Alucinação compartilhada é realidade.

E então o outro desce do trem e nos puxa junto. “Você tem certeza disso?”, um pergunta ao outro. “Você é louco!”. Eles se duvidam e seguem por uma série de testes de realidade e sanidade, até que o amor ficcional se estabilize como uma realidade a ser mostrada a amigos e parentes. “Eu te amo” é o selo final, o atestado de realidade que tanto buscamos. Pelo “Eu te amo”, os olhos do outro nos conferem existência e substância – pelo outro e no outro, eu finalmente existo.

O melhor da arte é ser vivida como realidade. Não entramos no cinema para ver um filme – isto é, a ficção não nos interessa como ficção. Entramos pela experiência de realidade que vamos percorrer, pelas emoções que vão brotar, pela abertura, pela textura real que aquele espaço oferece. Quando ouvimos “Eu te amo”, confirmamos aquilo que nós mesmos sabíamos ser possível, entramos enfim no filme que vinhamos escrevendo para nós mesmos. Afinal, temos muitos roteiros, scripts e sketches prontos. Muito material não filmado, vida não vivida.

Ao encenar nossos sketches e aguardar por um brilho diferente, na verdade estamos abrindo nosso cinema a quem quiser viver aquela fantasia como realidade. “Não, eu não amo você, mas posso fingir e ambos acreditarmos nisso. Não, eu não conheço você, mas posso conhecer e ambos acreditarmos nisso. Não, eu não sou feliz, mas posso fingir e ambos acreditarmos nisso”. Já ao adentramos o cinema do outro, dizemos: “Eu sei que você não é tão belo assim, mas posso fingir e fazê-lo ser”. Ora, tal capacidade de envolvimento não é senão uma capacidade para o fingimento. Sim, amor é coisa de artista. E por que não dizer que arte é coisa de quem ama?

Uma história de amor é também, como uma obra de arte, um percurso, uma viagem. A ficção nos libera da factualidade, do destino, da solidez dos eventos e da rigidez de nossos comportamentos. Nosso parceiro projeta um outro em nós e a partir desse personagem começamos a agir diferente. Nasce o percurso, a transformação, a aprendizagem. A paixão irrompe quando o outro abre um caminho, oferece uma história e vê em nós algo que ainda não somos. Se amor é filme, cantada é trailer.

O que se desenrola a partir daí é sonho, movimento incessante com trilha sonora de Tiersen. O desdobramento real de tudo aquilo que sequer nos era possível imaginar. E quanto mais realidade passa por nossa boca, mais essa textura de sonho permeia nossa vida. Um bom amor pode transformar nossa vida inteira em filme e nos liberar do peso das coisas, da concretude que tanto nos aflige.

E o beijo. Queremos engolir o outro, levantá-lo, tirá-lo de dentro de si. E o sexo: depois de vermos o trailer do filme que o outro nos oferece, dizemos “Sim! Pegue na minha mão e me conduza por isso tudo” ou “Sim! Eu quero levar você para todos esses locais”. Eu não apenas projeto algo nela, mas ao levá-la para cama, sussurro: “Eu vou acabar com você e não vou descansar até que você se sinta tão bela quanto só eu sei que você é”.

Somos cinemas ambulantes. Na fachada de nós, qualquer um pode ler: “Ofereço histórias de amor. Entrada gratuita”.

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