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Gêmeos univitelinos doam órgãos para salvar a vida dos irmãos


“Eu me sinto útil. Sabe quando você faz uma coisa que ninguém mais pudesse fazer? E eu fui lá e fiz”, diz o professor de educação física Marcelo dos Santos.
”Você nunca quer fazer uma cirurgia dessa, porque isso ia envolver uma pessoa que você gosta demais”, diz, emocionado, o administrador de empresas Newton Colombo Martini.
Newton e Marcus.
Marcelo e Camila.
Eles são irmãos, sabem o que é compartilhar experiências, cuidar um do outro e "aguentar um ao outro".
”Ela é a irmã caçula. É a mimada e eu sou o irmão rebelde. Eu sou o mais velho”, brinca Marcelo. “Eu era quem dava os cascudos em casa”, ri.
Ah, os cascudos.
”Ele às vezes aprontava na escola, na hora da saída todo mundo vinha para brigar comigo”, diz Newton.
Unidos desde o primeiro instante de vida, esses gêmeos univitelinos, idênticos mesmo, sabem o que é apanhar pelo outro, salvar um ao outro. Começou com as provas de biologia e química, que Newton achava difíceis e Marcus tirava de letra.
“Eu pedia para ele ir na sala de aula. A gente trocava relógio, essas coisas. Porque nós éramos muito parecidos”, conta Newton.
O que Marcus nem sonhava é que Newton iria retribuir compartilhando com o irmão um pedaço do próprio corpo. Eles tinham 26 anos quando os rins de Marcus, na época estudante de medicina, foram parando de funcionar por causa de uma inflamação que ele teve ainda na infância.
“Eu tomava um pote de sorvete. Ele não podia. Eu ia para um churrasco. Ele não podia. Então, sempre tinha aquela coisa de restrição”, lembra Newton.
Em uma tarde de 1992, Marcus chegou em casa com a difícil notícia de que precisava entrar na fila e esperar por um rim.
“De imediato a minha mãe se prontificou que ela daria o rim dela numa boa”, diz Marcus.
“Eu falei para a minha mãe: ‘Mãe, se a senhora doar ele vai ter que tomar remédio contra rejeição para o resto da vida. Se eu doar, se nós somos gêmeos univitelinos, acabou. É tudo igual’”, conclui Newton.
Era também entre os irmãos que a advogada Camila Mariano dos Santos precisaria encontrar um fígado compatível, ou seja, o mais parecido possível com o dela. Camila tem duas doenças autoimunes, a colangite e a hepatite. O sistema imunológico dela não funciona bem e ataca o próprio fígado como se fosse um inimigo.
“Era uma doença progressiva, rara e não tinha cura. A alternativa seria o transplante. Foi um baque porque a gente não espera receber essa notícia”, lembra Camila.
Camila emagreceu e viu a pele mudar de cor. Ficava em carne viva. Uma coceira terrível era o pior sintoma da doença, que demorou cinco anos para ser diagnosticada.
“A gente via que ela estava sendo torturada pela doença”, conta Marcelo.
O sofrimento e a falta de doadores falecidos fizeram com que os médicos de Camila optassem por um transplante mais arriscado: usar parte do fígado de um parente vivo.
“Esta é uma alternativa criada no Brasil, mas é uma alternativa de tratamento de exceção, porque ela coloca um indivíduo absolutamente são sob o risco da retirada de metade do fígado”, alerta o chefe do Programa de Transplante de Fígado do Hospital A.E./SP, Ben-Hur Ferraz Neto.
Professor de educação física, casado e pai de duas filhas, Marcelo tinha muito a perder. Mas não pensou duas vezes.
“Eu sou o mais velho dos quatro irmãos. Acho que bateu um peso de responsabilidade”, analisa Marcelo.
Deu compatibilidade. Mas o que sentem os pais ao verem dois filhos em macas a caminho do centro cirúrgico? O que sentem os filhos, a mulher do doador? O irmão doente ao ver o irmão saudável submetido ao risco?
“Na hora que os enfermeiros vieram pegar o Marcelo, foi muito difícil. Eu lembro que eu cheguei e falei: ‘Marcelo, não vá’”, diz Camila.
“Eu acho que foi a hora que mais mexeu com a família”, acrescenta Marcelo.
“A Camila estava doente, mas o Marcelo, não. E se acontecesse alguma coisa com ele?”, pergunta o pai José dos Santos.
“O único medo que eu tive foi de agulha. Eu tenho pavor de agulha. Eu falei: ‘Pode me tirar tudo que vocês querem tirar, mas não me deixa ver a agulha’”, lembra Newton.
Os momentos difíceis ficaram para trás. O primeiro gêmeo idêntico transplantado no Brasil nunca tomou remédio para rejeição.
“Eu estou quase completando 20 anos de transplante, levando uma vida saudável”, comemora o urologista Marcus Colombo Martini.
“Está até mais gordo que eu, come de tudo”, brinca Newton.
Camila pôde retomar o trabalho como advogada e Marcelo viu o espantoso poder que o fígado tem de se regenerar.
“Eu fui em uma consulta 60 dias depois. Eu estava com o fígado praticamente completo”, conta Marcelo.
“Tomo os meus medicamentos, que são os imunossupressores, mas fora isso a minha qualidade de vida hoje não tem comparação”, acrescenta Camila.
Tudo isso graças ao avanço da ciência, a batalha dos profissionais de saúde que lutam pelos transplantes e à generosidade de quem doa.
“Hoje, no Brasil, 60% dos transplantes são com doador falecido e 40%, com doador vivo. O Brasil é o país que tem o maior sistema público de transplante do mundo e em número absoluto é o segundo país no mundo em número de transplantes”, aponta o diretor do Hospital do Rim de São Paulo, José Osmar Medina.
Mas o desafio ainda é enorme. Segundo o Ministério da Saúde, hoje há mais de 50 mil brasileiros à espera de um transplante.
Fonte: GLOBO

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