segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O verdadeiro tamanho do estrago

Acabei de voltar do almoço. Fui encontrar um amigo num restaurante do shopping Villa-Lobos, aqui perto da Abril. Meu amigo tem o mau hábito de se atrasar -- e hoje não foi diferente. Durante os quase 20 minutos em que fiquei esperando o dito cujo, acabei ouvindo a conversa da mesa ao lado (sim, eu também tenho alguns raros maus hábitos). Havia três homens na mesa, e eles trabalhavam em duas empresas diferentes -- uma fornecedora da outra. A conversa estava para lá de tensa. O fornecedor cobrava um pagamento atrasado -- segundo ele, o valor acumulado já ultrapassava 1 milhão de reais. O cliente tentava se defender, dizendo que suas vendas estavam totalmente paradas. Além disso, ele não estava conseguindo crédito junto aos bancos e estava sem capital de giro. Sua sugestão era renegociar a dívida (outra vez, porque as duas partes já haviam conversado sobre isso semanas atrás). O fornecedor chegou a dizer que um grupo de empresas do setor havia se reunido para fazer uma espécie de lista negra, com o nome dos clientes que estavam inadimplentes, mas que ele havia preservado o nome do seu interlocutor. Nas entrelinhas, ficava claro que se o sujeito não pagasse o que deve seu nome iria para a tal lista negra. O fornecedor e o cliente não trabalhavam em empresas conhecidas (eles disseram os nomes e eu jamais tinha ouvido falar nelas).

Depois que meu amigo chegou não consegui ouvir mais nada. Mas no caminho de volta para a redação não consegui deixar de pensar numa coisa. Quando falamos nas conseqüências da crise para as empresas brasileiras, pensamos em grandes nomes como Aracruz, Votorantim e Sadia. Calculamos quanto elas perderam com derivativos ou qual o impacto da variação do dólar em suas exportações. Ninguém consegue ter idéia do efeito real que a crise tem sobre as milhares de pequenas e médias empresas espalhadas por todo o país -- que certamente têm mais dificuldade para conseguir crédito do que as grandes e que têm um caixa próprio muito menor para financiar suas operações. O tal cliente inadimplente mencionou a palavra "sobrevivência" pelo menos duas vezes durante os 20 minutos em que ouvi a conversa. Quantas empresas com perfil parecido com a dele devem estar nesse momento tentando também descobrir saídas para sobreviver? Infelizmente, acho que algumas delas não vão conseguir...

Fonte: Cristiane Correa

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