terça-feira, 14 de abril de 2009

Nova teoria sobre chuva divide cientistas

Uma ideia simples, e que não parece nova, pôs climatólogos em pé de guerra. Os físicos russos Anastassia Makarieva e Victor Gorshkov propuseram em 2006 que só a presença de florestas explica por que chove muito em áreas longe da costa, como o interior da Amazônia, e foram quase ignorados. Agora o debate começa a pegar fogo.

A explosão da controvérsia teve estopim duplo. No front especializado, um artigo elogioso de Douglas Sheil e Daniel Murdiyarso, do Centro Internacional de Pesquisa Florestal (Cifor, sediado na Indonésia), na edição de abril do periódico científico "BioScience". No front leigo, uma reportagem de Fred Pearce na revista de divulgação "New Scientist".

A reação padronizada de meteorologistas diante da hipótese russa é dizer que todos já sabem da influência das florestas na precipitação. Seus modelos predizem que o desmatamento reduz em cerca de 20-30% as chuvas de uma região. O debate motivou troca de e-mails ácidos entre cientistas brasileiros.

Makarieva e Gorshkov (M&G, para abreviar) afirmam que essa redução, contudo, pode chegar a 95% e transformar o local num deserto. Para eles, foi o que aconteceu na Austrália com a chegada de humanos, há 50 mil anos, e a subsequente redução das florestas.

Nessa diferença percentual está a controvérsia. Para M&G, do Instituto de Física Nuclear de São Petersburgo, a força da evaporação é um dos principais motores da circulação atmosférica, vale dizer, dos ventos que movem a chuva -mecanismo apelidado de "bomba biótica".

A adversários dizem que a força da bomba está no gradiente de temperatura provocado por diferenças na incidência e absorção de radiação solar entre regiões, a teoria padrão.

No esquema tradicional, ventos transportam massas de ar acima do oceano --onde são carregadas de umidade por evaporação, sob efeito do sol-- para a terra. Só que com esse mecanismo, a quantidade de chuva deveria diminuir no interior do continente, à medida que a costa fica mais longe. Não é o que ocorre em muitas partes do mundo, como a Amazônia, em cuja porção ocidental chove tanto ou mais que no litoral.

Para M&G, a explicação vem da própria floresta (por isso a bomba seria "biótica", viva). Por meio da transpiração, as plantas liberam vapor d'água na atmosfera. Conforme o vapor sobe, encontra camadas de ar frio e se condensa em gotículas, formando nuvens.

Na transição da forma gasosa para a líquida, a água diminui de volume, deixando um "vazio" no ar, diminuindo sua pressão. Isso faz com que o ar mais abaixo, onde a pressão é relativamente mais alta, seja sugado para cima, arrastando com ele o ar mais úmido, do oceano ou da própria floresta adjacentes. Uma bomba de elevar vapor, que produz chuva.



Polêmica fraterna

"Se sobreviver ao escrutínio, esta hipótese transformará o modo como vemos a perda de florestas, a mudança climática, a hidrologia e os serviços ambientais", escrevem Sheil e Murdiyarso. "Também oferece uma motivação poderosa para a conservação florestal."

"Há anos vínhamos tentando quebrar a resistência dogmática dos meteorologistas", conta o biogeoquímico Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Ele é o principal promotor da conjetura M&G no Brasil e já entrou em polêmica por causa disso até com seus irmãos meteorologistas, Carlos e Paulo.

As equações e cálculos de M&G, com base só na presença ou ausência de matas no litoral, parecem acomodar melhor o que se observa no norte da África e na Amazônia. Graças à vegetação, os 8 milhões de km2 de floresta amazônica bombeiam a cada dia 20 trilhões de litros de água para a atmosfera.

Fonte: Folha Online

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