terça-feira, 21 de abril de 2009

Brasil segue dividido sobre ditadura, afirma pesquisador

O pesquisador José Carlos Moreira da Silva Filho afirmou, em Coimbra, que a sociedade brasileira ainda se encontra "muito dividida" em relação à ditadura militar e que o tema é evitado por vários setores sociais.

"A sociedade está muito dividida em relação à questão da ditadura. Existem forças que entram em choque dentro da sociedade, dentro do próprio governo, setores que reivindicam uma memória a respeito das atrocidades que foram cometidas durante a ditadura e outros que entendem que não houve sequer essas atrocidades", disse o especialista.

O conselheiro da Comissão de Anistia do Brasil foi um dos oradores no seminário luso-brasileiro sobre repressão e memória política, que foi realizado durante dois dias no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.

"Boa parte da opinião pública brasileira acha que a questão da tortura cometida pelos agentes do Estado, pela ditadura militar, foi muito mais uma invenção de setores esquerdistas", afirmou o professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em declarações à Agência Lusa.

Reação da sociedade

Existe "um silenciamento", de acordo com o jurista, em relação ao tema da ditadura por parte de vários setores da sociedade brasileira.

"A ditadura não foi feita só pelos militares, ela foi apoiada por vários setores da sociedade civil, ligados ao empresariado, à Igreja, a vários órgãos e instituições representativas da sociedade", considerou José Carlos Moreira da Silva Filho.

Segundo o professor universitário, "o Brasil está muito atrasado na forma de lidar com esse período, em relação a outros países da América Latina como a Argentina e o Chile".

"Agora estamos começando a fazer algo que já deveria ter começado antes, mas é fato que o tema da ditadura militar aparece no Brasil em vários espaços, aparece muito no cinema, em livros e jornais. Esse assunto está vindo com força. Tenho esperança e otimismo que teremos condição de resignificar a história do nosso país e torná-lo mais democrático", afirmou.

Debate

No seminário, organizado pelo CES e pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça do Brasil, foi também oradora a portuguesa Margarida Calafate Ribeiro, pesquisadora responsável pelo projeto multidisciplinar "Os Filhos da Guerra Colonial: Pós-memória e Representações".

A pesquisadora afirmou que existe "uma estratégia" de se evitar o tema da guerra colonial na sociedade portuguesa.

"O fim da ditadura, o 25 de abril, a descolonização, ofuscam a memória da guerra colonial", declarou, realçando também que, para os ex-combatentes, "houve um apagamento do sentido político do conflito".

"Há uma descoincidência entre a memória pública e individual: naquela pouco se fala da guerra, mas quase todas as casas portuguesas têm histórias de guerra", afirmou Margarida Calafate Ribeiro.

No período de debate desta sessão, o historiador Rui Bebiano considerou que a deserção "é um fenômeno cuja importância ainda hoje é escamoteada".

"Há estudos que indicam que, na fase final da guerra [colonial], o número de desertores e refratários chegou a 30 por cento dos mobilizados", considerou o investigador do CES e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

O seminário, que decorreu durante dois dias no CES, foi encerrado hoje por Paulo Abrão Pires Junior, presidente da Comissão de Anistia do Brasil, e por Cecília MacDowell Santos, pesquisadora do CES.

Fonte: UOL

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