A aldeia ou o mundo?

Não é preciso ser gaúcho, colorado ou gremista. O assunto central aqui parece ser Grenal, mas não é. Estamos falando, no fundo, de campeonatos estaduais. Os principais clubes brasileiros vivem, ou viverão já, já, o mesmo problema. Terão que achar uma resposta para a pergunta: estou mais interessado na aldeia ou no mundo?

Antes de mais nada, apresentaremos os fatos. Domingo tem Grenal no Estádio Beira-Rio. Apesar de ser apenas as quartas-de-final do segundo turno (ai, complicados estaduais...), decide a vida do Grêmio. Se perder, fim de Gauchão. O Inter, como já venceu o primeiro turno, de qualquer jeito está nas finais.

Mais fatos. O Grêmio caiu nessa gelada porque, podendo perder de 2 x 0 para o Caxias na quinta-feira, escalou um time reserva e tomou de quatro. Ficou em quarto lugar do seu grupo e pega o primeiro do outro grupo, o Inter.

Mais fatos. O Inter está passeando nos últimos meses. O Grêmio, penando. Nos últimos quatro Grenais, o Inter venceu todos. O Grêmio tem jogo da Libertadores na próxima quarta-feira. O Inter fechou o Beira-Rio na véspera do clássico para a festa do seu Centenário com mais de 3 mil colorados.

Agora, o dilema gremista. Escalar uma equipe titular ou reserva para o clássico? Se é jogo de sobrevivência na competição, o instinto mandaria botar o time principal. O que o torcedor fanático mais quer é vencer o Inter em sua casa e botar água no chope colorado em meio aos festejos. O gremista não suporta mais perder para os colorados. A imprensa gaúcha, até por instinto de auto-preservação profissional, clama por titulares. Afinal, não quer esvaziar um evento esportivo que pode ser verdadeiramente gigante.

O Inter não tem nada com isso. Está bem, colocará o que tem de melhor em campo e anda com o calendário sossegado na Copa do Brasil. A questão é exclusivamente gremista. A lógica provinciana de que o mais importante na vida é ser o rei da aldeia fala alto. Para o torcedor mais emocional não interessam objetivos nacionais e internacionais. O torcedor quer trabalhar em paz na segunda-feira sem ser atormentado pelo chato do rival. O gremista pede, de joelhos, time titular e pronto. Depois se vê o resto...

Do ponto de vida estratégico, é uma insanidade escalar a equipe titular. O Grêmio tem pouquíssimo a ganhar e tudo a perder. Aí é preciso uma análise de risco. O Grêmio pega o fraco Aurora na quarta-feira pela Libertadores. Precisa ganhar para aliviar a vida e praticamente se classificar. Os bolivianos são ruins mesmo, mas os gremistas são bons na arte de perder gols. A partida só ficará fácil após o primeiro gol. Quem garante que a bola entrará?

Se perder de pouco ou de muito no Grenal (a lógica prevê vitória colorada), como ficará a motivação tricolor para o resto do semestre? Mesmo a hipótese da vitória tem suas desvantagens. O Grêmio estraga a festa do Inter, os torcedores comemoram. E daí? O que isso muda na vida dos adversários da Libertadores?

O triunfo seria de consumo local em um momento que o Grêmio busca ser, sem trocadilho, internacional. O Grêmio iria para a semifinal do segundo turno tendo que enfiar mais quatro datas em seu calendário apertado do semestre. Teria que jogar no interior, ônus por ter acabado em quarto no turno. E teria que decidir, mais uma vez, no Beira-Rio a final do Gaúcho (isso se vencer semifinal e final do turno).

Será que consegue tudo isso? Será que vale a pena? Não é melhor botar os reservas no Grenal e desistir da encrenca? Para muitos, o nome disso é covardia. Faz mesmo sentido. Nem tentar vencer com medo de perder é uma atitude covarde. Em guerras, muitas baixas se fazem da valentia da tropa. Estrategistas importantes já entregaram batalhas para vencer a guerra. Mas, para tomar a decisão correta, o Grêmio precisa decidir antes: a aldeia ou o mundo?

Fonte: Placar

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