quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Em alta, Ricardinho nega fama de desagregador e cita Ceni

Longe dos grandes centros desde que trocou o Corinthians pelo Besiktas após a Copa do Mundo de 2006, Ricardinho está em alta no futebol do Catar. Contratado pelo Al Rayyan no último mês de maio, o jogador vê seu time na briga pela liderança do campeonato nacional e vive uma fase de artilheiro, com nove gols em dez jogos. Titular do técnico brasileiro Paulo Autuori, o meia é o mais premiado da legião de brasileiros que invadiu o país do Oriente Médio.

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Convocado para defender a Seleção Brasileira nas duas últimas Copas, Ricardinho contabiliza três Campeonatos Brasileiros e cinco Estaduais, além do Mundial de Clubes da Fifa. Apesar da carreira de sucesso entre as quatro linhas, o jogador ganhou a fama de desagregador entre os boleiros. Pivô de uma confusão que culminou com o afastamento do ídolo Marcelinho do Corinthians em 2001, ele foi acusado pelo ex-companheiro de ser o "leva e traz" entre o grupo de jogadores e a diretoria.

Transferido para o São Paulo em uma negociação polêmica, teve uma passagem atribulada e sem títulos pelo Morumbi. No ano de 2006, em uma eleição promovida entre os atletas, a Revista Placar apontou Ricardinho como o jogador mais odiado do Brasil. Um dos motivos seria o relacionamento estreito que o meia costuma ter com os treinadores. Já na Turquia, foi agredido após um clássico entre o Besiktas e o Fenerbahce, acusado de racismo.

Em entrevista ao Terra, bem articulado e ponderado como de costume, Ricardinho comentou a série de incidentes que contrastam com a imagem de um jogador diferenciado dentro e fora do gramado. Ele atribui os problemas justamente ao seu estilo ímpar. Para argumentar, cita o ex-companheiro Rogério Ceni. "Toda vez que você foge da normalidade e procura ser uma pessoa esclarecida, acontece isso", diz o meia do Al Rayyan.

Ao lado de Rogério Ceni, Ricardinho fez 64 jogos e marcou cinco gols com a camisa do São Paulo. Venceu 32 partidas e perdeu 15. Prova de que não guarda boas recordações do período no clube é o fato de ignorar o time tricolor no Campeonato Brasileiro, a ponto de não torcer pela equipe nem mesmo no clássico diante do rival Palmeiras. Na entrevista exclusiva ao Terra, o jogador ainda falou sobre Seleção Brasileira, a vida no mundo árabe e a possibilidade de voltar ao Corinthians no ano do centenário do clube.

Terra - Alguns jogadores que iniciaram a disputa do Campeonato Brasileiro, como o Roger (Grêmio), o Fernandão (Internacional) e o Marcinho (Flamengo), foram contratados por equipes do Catar. Além dos atletas, técnicos como Paulo Autuori, Sebastião Lazaroni e Marcos Paquetá também trabalham no país. A que você atribui o grande número de brasileiros no futebol do Catar?
Ricardinho - Acho que muito disso tem relação com os brasileiros que trabalharam aqui antes. Eles deram certo e trabalharam bem. Acho que o Evaristo de Macedo foi o primeiro. É claro que para que as equipes tenham interesse, também tem o trabalho de cada um. Mas o principal são os nossos antecessores, que sempre se adaptaram bem. Além de técnicos e jogadores, também tem muitos outros brasileiro nos clubes, como massagistas, preparadores físicos e técnicos das categorias de base. Tem gente com mais de 20 anos de trabalho aqui. Não é um ou outro, são vários. Eles vieram e abriram espaço para a gente. Mas se os brasileiros não se adaptassem, eles escolheriam gente de outras nacionalidades.

Terra - Qual a principal conseqüência disso para o futebol do Catar? Podemos dizer que a presença de tantos brasileiros aumenta o nível técnico do campeonato ou que os times jogam de forma mais ofensiva?
Ricardinho - Acho que o primeiro ponto é o aumento do nível de qualidade. Depois, tem a característica do jogador brasileiro de sempre jogar ofensivamente. Como alguns times têm técnicos brasileiros, isso acaba passando para as equipes também. Mas isso não quer dizer que todos os times joguem de forma parecida, cada um tem suas características. Posso dizer que o campeonato tem tido bons jogos, disputados e com qualidade devido à maneira como os times treinam e jogam. Não gosto de comparar, porque o campeonato aqui tem uma característica, na França tem outra... Mas posso dizer que o futebol aqui tem um bom nível não apenas dentro de campo, mas na organização também.

Terra - De que forma você tem jogado no Al-Rayyan? Como de costume ou atuando mais perto do gol adversário?
Ricardinho - Eu jogo no meio-campo da mesma forma, armando as jogadas da mesma maneira como sempre fiz. Em alguns momentos, no Besiktas joguei de uma maneira um pouco diferente na primeira temporada, até pela exigência de o jogador precisar saber exercer uma outra função. Mas aqui o Paulo Autuori me conhece bem e tem me colocado da forma como sempre joguei: pelo meio armando e também chegando na frente para finalizar quando surge a oportunidade.

Terra - Você tem feito mais gols nesta temporada. A que atribui esse fato?
Ricardinho - Primeiro, pela preparação de qualidade comandada pela comissão técnica desde o começo. Fizemos uma pré-temporada boa e isso faz diferença. Além disso, a comissão é formada por gente de qualidade, que procura extrair o máximo de cada jogador, o que também faz diferença. Além disso, a forma como a equipe joga também facilita o trabalho. Tem sempre três jogadores na frente e a opção de dar continuidade. A gente tem liberdade para chegar na frente e estamos contentes porque as coisas têm dado certo.

Terra - O Al Rayyan faz boa campannha e briga pela liderança do campeonato. Apesar de o torneio ainda estar no começo, podemos dizer que o time é um dos favoritos ao título?
Ricardinho - É um campeonato muito longo, mas acho que o time está no caminho certo. O Al Rayyan tem uma equipe forte e é uma das candidatas ao título. Não é o principal, tem outras equipes também.

Terra - O Aloísio foi contratado recentemente para jogar no seu time. Você tem contato com ele e com os outros brasileiros?
Ricardinho - Temos bastante contato porque o Catar é um país pequeno e todas as cidades são bem próximas. Pensando em São Paulo, é como se a Zona Leste fosse uma cidade e a Zona Norte, outra. O Aloísio mora no meu prédio. Ele chegou há pouco tempo, mas já fizemos uma amizade boa. Ele é um cara super simples. Mesmo com pouco tempo de clube, já deu para ver que é um cara super positivo. Ele trabalha e se dedica. Somos vizinhos e sempre vamos para os treinos juntos, é a pessoa com quem mais tenho contato.

Terra - O Aloísio sempre foi um jogador muito extrovertido e brincalhão. Como ele está no Catar? Ainda está meio tímido?
Ricardinho - Não convivi com ele no São Paulo, mas aqui ele está dessa forma: brincando e dando risada, apesar da língua. Ele está sempre participando de tudo, tem um astral ótimo. O Aloísio está nos ajudando bastante, inclusive fazendo gol.

Terra - Você e sua família tiveram algum tipo de dificuldade de adaptação ao Catar?
Ricardinho - Não, nenhuma. O Catar é um país que oferece tudo, é um país aberto. É lógico que tem seus regulamentos e tudo, mas não é nada de excepcional. Pode assustar algumas pessoas pela idéia de que seja um país muito diferente. A única coisa de muito diferente para nós em relação à Turquia é em relação ao Ramadã. Na Turquia, tudo funcionava, mas aqui, não. Durante o dia, nada funciona, fica tudo fechado e só abre de manhã ou bem à noite. Nessa época, eles mudam os horários e não tem problema. Não é nada que atrapalhe. O Catar tem muitos estrangeiros, tem de tudo. Não tem nada que influencie no nosso dia-a-dia.

Terra - Durante o Ramadã, os muçulmanos são obrigados a jejuar durante a maior parte do dia. Os jogadores também seguem essa determinação? Como o Paulo Autuori administra essa situação?
Ricardinho - Alguns jogadores do time respeitam, não muitos. Na Turquia, tinha muitos que seguiam. Nesse período, os jogos são colocados mais tarde, tinha jogo que virava o dia, porque eles tinham que se alimentar no final da tarde e dar tempo de fazer digestão antes de jogar. O Paulo leva em consideração e faz uma programação especial para respeitar os horários de reza e de alimentação, a gente fica com os horários todos fechados. Para a minha família, segue a vida normal, a gente se alimenta em casa.

Terra - Você participou da sua segunda Copa do Mundo, saiu do Corinthians para o futebol turco e agora está no Catar. Ainda tem esperança de retornar à Seleção Brasileira?
Ricardinho - Eu fiz uma opção quando saí para a Turquia depois da Copa e sabia que a visibilidade não seria a mesma do que teria no Brasil ou em outros países. Quando tive a chance, fiz essa opção e já fui sabendo disso. Até porque joguei duas Copas do Mundo e sabia que teria essa renovação que está tendo agora. Mas a gente sempre acompanha os jogos.

Terra - Mas então em troca do que você resolveu abrir mão da Seleção?
Ricardinho - Você nunca abre mão da Seleção. É uma situação que você nunca pode abrir mão. Eu sei que o fato de aceitar a proposta da Turquia e agora jogar no Catar me deixa mais distante dessa possibilidade. Agora, não é que eu abri mão. De defender o meu País, eu não abro mão nunca. É uma questão de ser realista e saber que na próxima Copa vou estar com 34 anos. Não é que eu não poderia jogar, mas joguei duas Copas do Mundo e sabia que teria esse momento de renovação que está tendo agora.

Terra - No futebol brasileiro, o número de meias canhotos e habilidosos como você e o Alex, do Fenerbahce, é pequeno. Não acha que isso pode favorecer um eventual retorno à Seleção?
Ricardinho - Não sei, é difícil opinar ou colocar qualquer coisa a respeito disso, porque depende do treinador que comanda a Seleção, da forma como ele pensa. Cada um tem sua visão e vai gostar das características desse ou daquele jogador. O treinador tem que analisar cada jogador e ver qual é bom dentro do seu esquema.

Terra - Você viu os últimos jogos do Brasil nas Eliminatórias para a Copa do Mundo? O que achou?
Ricardinho - Eu assisti a partida contra a Venezuela, mas pelo horário não deu para ver o jogo contra o Equador. Não estou fugindo da sua pergunta, mas sou jogador e não posso ficar analisando como comentarista. De repente, um dia se eu parar posso ser comentarista ou treinador ou palpiteiro, mas hoje sou um atleta e preferia não colocar nada nesse sentido. O Dunga vem fazendo o trabalho dele e o Brasil está conseguindo bons resultados.

Terra - Alguns jogadores mais bem articulados como você têm se destacado como comentaristas, a exemplo do Caio Ribeiro. Você pensa em seguir um caminho parecido quando encerrar a carreira?
Ricardinho - Na verdade, ainda não me planejei para parar. Acho que ainda tenho alguns anos para jogar em bom nível antes de parar. Eu me cuido e procuro estar sempre bem. Nunca tive problemas de lesão na carreira e sempre me mantive jogando. Meu plano por enquanto é seguir meus dois anos de contrato aqui e continuar o que venho fazendo. Mas já tiveram pessoas do meio que vieram falar comigo sobre o assunto, querendo saber o que eu faria no futuro.

Terra - E a Série B? Tem passado no Catar?
Ricardinho - Não, ao vivo são poucos os jogos que passam. Mas os resultados eu tenho sempre acompanhado, até porque o meu Paraná está na Série B e o Corinthians também. Na Série A, não tem como apostar em ninguém. Quem apostar, vai perder. O Grêmio tinha uma boa vantagem e acabou perdendo. Agora, acho que o campeonato está aberto. O Palmeiras se aproximou e conseguiu um resultado importante com o São Paulo, pelas circunstancias do jogo.

Terra - Você conseguiu ver o clássico ao vivo?
Ricardinho - Sim, todo domingo eu vejo futebol.

Terra - Teve torcida pelo São Paulo?
Ricardinho - Não, sabe que eu sou paranista de coração... Estou acompanhado também o Corinthians. Vou estar torcendo para ganhar a Série B, mas a ascensão é o mais importante. Também estou sentindo gosto acompanhado o Santos, que estava em baixa quando o Márcio assumiu. Também tem o Serginho Chulapa, um cara que eu admiro muito. O Santos não pode cair, porque é um clube muito bem administrado e estruturado. Estou acompanhado o Santos, o Corinthians e o Paraná.

Terra - O atual camisa 10 do Corinthians é o Douglas. Você conhece o futebol dele? Acha que lembra um pouco o seu estilo de jogo?
Ricardinho - Que bom essa comparação com um bom jogador! Cada um tem sua característica. No meu período no Corinthians, fui muito feliz e conquistamos vários títulos. Agora, ele vai conquistar um título e ajudar o time a subir jogando bem e fazendo um bom trabalho. Fico contente não só por ele, mas por todo o Corinthians que está subindo.

Terra - O seu contrato com o Al Rayyan termina em 2010. Você pretende retornar ao Brasil no final do compromisso?
Ricardinho - Ainda tenho um planejamento de dois anos aqui. Chegando no final de fevereiro de 2010, vou começar a pensar no futuro. Por enquanto, meu pensamento está aqui, minha família está bem aqui e quero seguir.

Terra - 2010 é o ano do centenário do Corinthians. Você gostaria de retornar ao clube onde conquistou seus principais títulos nessa data especial?
Ricardinho- A gente sabe que é um ano importante para o Corinthians. Além do centenário, no dia 14 de janeiro serão completados os 10 anos do título mundial conquistado naquela final contra o Vasco.

Terra - Então o cenário já está armado para o seu retorno...
Ricardinho - Tenho contrato até maio. Estou muito feliz aqui, estou bem e quero cumprir o meu contrato. Da mesma forma, o Corinthians também está muito bem, está se reorganizando e conta com pessoas competentes para cuidar do futebol. Mesmo analisando à distância, vejo que o treinador é competente e que o clube está no caminho certo.

Terra - Você chegou a entrar na Fifa para receber uma dívida do Besiktas. Eles já pagaram?
Ricardinho - O Besiktas não deve só para mim, deve para todos os jogadores que já trabalharam ou trabalham lá. É um clube que tem esse tipo de problema. A gente fala porque vira e mexe eles têm interesse por brasileiro. Esse problema já está sendo resolvido.

Terra - Obviamente, isso influenciou na sua decisão de trocar o futebol turco pelo Catar...
Ricardinho - Eu não podia assinar um novo contrato com o clube sendo que o primeiro compromisso ainda tinha uma dívida.

Terra - Depois do clássico contra o Fenerbahce, você chegou a ser agredido no estacionamento do estádio. Um dos agressores foi o brasileiro naturalizado Mehmet Aurélio. Você também pesou esse incidente para tomar a decisão de sair? Chegou a falar com ele depois?
Ricardinho - Não voltei a falar com ele e nem quero. Foi uma coisa casual de jogo. Tem esse negócio... Às vezes as pessoas não perdem só o jogo, mas também a razão, e aquilo que aconteceu foi um típico exemplo disso. Mas isso a gente não leva para frente.

Terra - Você ganhou títulos em quase todos os clubes que defendeu e participou de duas Copas do Mundo, mas há quem diga que não tem bom ambiente nos elencos. Teve o incidente com o Marcelinho no Corinthians, a Revista Placar elegeu você como o mais odiado, no São Paulo você tinha um apelido pejorativo... O que pode falar sobre esse tipo de crítica?
Ricardinho - Na verdade, eu não falo nada, porque não tenho nada a falar. O que posso comentar é só do meu trabalho. Onde passei fiz amigos e todos os lugares sempre me quiseram de volta. Toda vez que você é um pouco diferente, acontece isso. Eu não sou o único e posso dar um exemplo porque é uma pessoa que conheço bem, respeito e tenho uma amizade de anos: o Rogério (Ceni). Às vezes criticam, falam e comentam sobre ele. Quando você é diferente, vamos dizer, quando você é uma pessoa que sabe o que quer, venceu e vence dentro da profissão, isso às vezes incomoda as pessoas. Posso citar o exemplo do Rogério porque nos conhecemos há muitos anos. Toda vez que você foge da normalidade e procura ser uma pessoa esclarecida, acontece isso. Não tem como agradar a todo mundo. O importante é trabalhar bem dentro da sua forma de ser e ajudar as pessoas do grupo.

Fonte: Terra

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