terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Cérebro é uma gambiarra evolutiva, diz psicólogo dos EUA

Engenheiros americanos costumam usar a gíria "kluge" ao se referirem a soluções improvisadas para problemas em projetos. A falta de iluminação numa casa nova pode rapidamente ser resolvida, por exemplo, com um fio desencapado, uma lâmpada velha, uma extensão e esparadrapo. Esse tipo de gambiarra, diz o psicólogo Gary Marcus, da Universidade de Nova York, é também a melhor analogia para descrever a mente humana.

"Kluge" é o título do novo livro de Marcus, dedicado a mostrar como nossas faculdades mentais mais caras -consciência e raciocínio lógico- foram construídas pela evolução aproveitando estruturas cerebrais primitivas, na falta de algo melhor. Dá para o gasto, mas o preço que pagamos por não sermos fruto de um "projeto inteligente" é que nossa gambiarra cerebral freqüentemente entra em curto-circuito.

Auto-engano, teimosia, presunção --e crenças religiosas- seriam todos efeitos colaterais da forma como a mente é estruturada. Nossa memória, também, parece ser ótima para um caçador identificar pegadas de animais, mas não muito para guardar senhas de banco.

Analisando suas teorias à luz de experimentos psicológicos, Marcus mostra o quanto somos capazes de violar a racionalidade que supostamente é a marca registrada do Homo sapiens, o homem que sabe. Em um fenômeno conhecido como "ancoragem e ajuste", por exemplo, o cérebro é normalmente induzido por valores arbitrários --o autor descreve um experimento no qual números que saíam numa roda da fortuna influenciavam voluntários a responder uma questão não-relacionada, como "qual é a porcentagem de países africanos na ONU?"

Outro fenômeno analisado por Marcus a chamada "preparação", ou indução subliminar. As pessoas tendem a responder a perguntas sobre suas vidas com mais otimismo depois de assistir a "Os Smurfs" do que a "O Ladrão de Bicicletas".

Diante disso, Marcus acusa seu próprio professor Steven Pinker --o papa da psicologia evolutiva-- de superexaltar o cérebro humano como um órgão perfeitamente adaptado. Em entrevista à Folha, o psicólogo falou um pouco sobre como até a própria ciência cai nas armadilhas da mente.

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FOLHA - Seu livro tem uma espécie de seção de auto-ajuda ao final, listando coisas que as pessoas podem fazer para não serem apanhadas pelos truques que a mente prega em todos nós. Ter autoconsciência dessas falhas realmente pode fazer com que identifiquemos melhor nossas irracionalidades?

GARY MARCUS - Acho que a autoconsciência ajuda mais em alguns problemas do que em outros. Podemos reduzir a quantidade de problemas que acontecem. Não acho que possamos eliminá-los. Se você refletir um pouco mais sobre alguma decisão em particular e pensar: "Estou sendo influenciado por preparação?" ou "estou sendo influenciado por ancoragem?" você poderá melhorar, às vezes. Perguntar a si próprio sobre possíveis alternativas para explicar dados pode ajudar em diversas situações.

FOLHA - O sr. critica Steven Pinker, que foi seu orientador, por vender uma imagem do cérebro com um órgão bem adaptado ao ambiente, funcionando sempre em harmonia. Pinker respondeu à sua crítica?

MARCUS - Bom, acho que ele diria que os psicólogos evolutivos certamente estão cientes de que o cérebro tem limites. Eu diria que eles estão cientes, mas não têm prestado muita atenção nisso. Acho que nós temos uma diferença de ênfase. A maior parte dos exemplos que os psicólogos evolutivos dão são sobre coisas que o cérebro faz bem. Eu tenho tentado abordar isso com equilíbrio e falar também sobre as coisas que o cérebro não faz direito.

FOLHA - Seu livro se baseia em um argumento que questiona ideologias como o design inteligente. O combate ao design inteligente foi o que motivou o livro?

MARCUS - Certamente eu quis que o livro fosse um desafio ao design inteligente. Acho que essa é uma crença bizarra em tempos modernos, mas não gastaria muito tempo da minha vida combatendo especificamente um pequeno grupo de pessoas que não acho que esteja realmente querendo ter um debate científico.

Eu estava mais interessado, acho, em desafiar a psicologia evolutiva, mas acho que o livro é um ataque forte simultâneo a quem quer que pense que nós somos "bem projetados", por qualquer razão que seja, incluindo os criacionistas.

FOLHA - O livro destaca o quanto todos nós somos vulneráveis a adotar crenças que não temos base racional para sustentar. A religião se trata disso. O sr. acha que a evolução pode nos ter "programado" para a crença religiosa?

MARCUS - A evolução nos moldou de forma a que desejássemos ter explicações para as coisas. Não gostamos de informações mal explicadas. Isso é parte da razão pela qual somos atraídos pela religião. Acho que o fato de termos viés de confirmação --o hábito de acolher evidências favoráveis àquilo em que acreditamos e de desqualificar as evidências em contrário- nos torna inclinados a aceitar a religião com explicação para coisas que acontecem.

Não acho que a evolução nos tenha tornado especificamente mais vulneráveis à religião do que a outros tipos de idéia, mas isso faz da religião um tipo de idéia muito sedutor para um humano.

FOLHA - Alguns sociólogos criticam hoje o culto ao otimismo, que é uma espécie de nova religião apregoada por livros populares de auto-ajuda. Seu livro, apesar de ter um traço de auto-ajuda, não apregoa o otimismo a qualquer custo...

MARCUS - Acho que todos procuramos ter um equilíbrio entre otimismo e realismo. O custo do otimismo excessivo é o auto-engano. E o auto-engano pode ser perigoso. Pessoas podem usar isso para justificar comportamentos que as põem em enrascadas.

FOLHA - Vários livros de ciência para leigos deste ano são títulos no estilo "Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estúpidas". Todos tentam explicar por que a mente sofre tanto auto-engano. Atacar o cérebro é a tendência nova na psicologia?

MARCUS - O que existe é a tendência entre muitos acadêmicos de elaborar as coisas considerando que o cérebro é perfeito. A economia, por exemplo, parte do pressuposto de que sempre tomamos nossas decisões racionalmente, e acho que a literatura em psicologia não vinha falando muito desse problema.

É claro que o cérebro também não é completamente irracional, mas somos limitados. Fazemos algumas coisas muito bem, outras nem tanto. O importante é ter um panorama realista, mas é como um pêndulo que sempre vai e volta. Acho que, se nesses últimos anos saíram mesmo mais livros tratando dessas limitações humanas, é uma coisa boa.

FOLHA - Com esse tipo de conhecimento caindo nas mãos de pessoas com más intenções, o sr. não acha que elas podem aproveitá-los para explorar os outros em vez de ajudá-los? Não é o caso do marketing?

MARCUS - Bom, acho que eles já estão fazendo isso. Os publicitários já sabem intuitivamente várias das coisas das quais falo no livro, e os políticos também. O ponto é que o livro pode dar poder a cidadãos e consumidores para entenderem o que está acontecendo com eles.

FOLHA - Vários dos experimentos psicológicos que o sr. descreve no livro usam testes econômicos. Alguns economistas vêem na atual crise econômica raízes que têm a ver com auto-engano e um otimismo desmesurado no mercado. A natureza humana vai tornar crises como essas sempre recorrentes?

MARCUS - Como espécie, nós somos muito vulneráveis àquilo que chamamos de "jogos de pareamento mental". Quando vemos uma pessoa ganhando dinheiro, supomos que, se fizermos a mesma coisa, vai dar certo. As pessoas não se dão conta de que recursos são limitados e nenhum desses planos pode funcionar para sempre. Aconteceu isso na crise das empresas ponto-com e agora está acontecendo com a crise das hipotecas "subprime". Em nenhuma delas as pessoas pararam para pensar que o dinheiro teria de acabar alguma hora. Os primeiros a entrarem no plano podem mesmo fazem dinheiro, mas as pessoas no fim da linha não vão conseguir, porque os recursos se acabam.

FOLHA - Quando o sr. fala sobre memória, dá como exemplo o fato de que, infelizmente, a evolução não criou em nosso cérebro um mecanismo para procurar informações arquivadas. O sr. acha que o advento da internet e do Google, afinal, pode mudar a maneira com que as pessoas lidam com a memória?

MARCUS - Acho que isso já está acontecendo. Antes as pessoas provavelmente contariam com sua própria memória, e hoje a internet pode substituí-la. Mas, na verdade, livros fazem a mesma coisa. Livros de referência, em particular, servem como substitutos para a memória há séculos. Acho que há risco de que as pessoas, se recorrerem inteiramente a máquinas, possam perder suas habilidades naturais. Hoje usam-se máquinas para fazer aritmética, e acho uma pena que as crianças de hoje não consigam fazer aritmética como nós fazíamos.

Mas, de um modo geral, acredito, é bom usar ferramentas externas. Essa é a mesma razão pela qual fabricamos martelos, carros etc.: eles nos trazem habilidades que não temos. A internet torna muito mais fácil adquirir informação. Acho que devemos aproveitar isso e poupar as crianças de passarem muito tempo decorando coisas, e ensiná-las um pouco mais sobre nossas limitações.

FOLHA - Usar pouco a memória não poderia tornar as pessoas piores em lidar com informação também?

MARCUS - Acho que, no pior dos cenários, poderia, mas não estou muito preocupado. Existe uma tendência chamada "Efeito Flynn", mostrando que em média os índices de inteligência estão crescendo, apesar de algumas habilidades estarem decrescendo. As pessoas não são tão hábeis para escrever como eram antes, mas é fato que as crianças podem encontrar informações mais facilmente, o que provavelmente é uma coisa boa. Nós podemos ensiná-las melhor a discriminar informações boas e ruins, mas os fatos disponíveis significam mesmo que uma pessoa hoje tem em média um arcabouço de informações melhor do que uma pessoa de cem anos atrás.

FOLHA - O sr. acredita que efeitos como o raciocínio por motivação e viés de confirmação seja hoje uma praga em ciência? Esse tipo de coisa está atrapalhando a academia mais do que antes?

MARCUS - Absolutamente. Cientistas são pessoas, e pessoas cometem todos os tipos de erros que eu descrevo no livro. O único motivo pelo qual a ciência progride é que há tantas pessoas trabalhando na área que idéias ruins alguma hora acabam sendo substituídas por idéias boas.

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