Colombianos escolhem hoje novo presidente; segurança e diplomacia são os desafios do sucessor de Uribe


Os candidatos colombianos à presidência: o ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus (à esquerda), do Partido Verde, e o ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos, do Partido de La U.

Os eleitores colombianos vão às urnas neste domingo (20) para escolher, em segundo turno, o sucessor de Álvaro Uribe, que há oito anos ocupa a presidência do país e tem aprovação de mais de 70% da população. Disputam o pleito o governista Juan Manuel Santos, do Partido Social da Unidade Nacional, ex-ministro da Defesa, da Fazenda e do Comércio Exterior; e o matemático, filósofo e ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, do Partido Verde.

De acordo com a última pesquisa eleitoral, Santos possui 67% das intenções de voto, contra 29% de Mockus. Entre os principais desafios do próximo presidente estão a segurança e a relação com os vizinhos sul-americanos, temais centrais no debate eleitoral.

No primeiro turno, realizado em 30 de maio e com uma abstenção próxima de 51% (na Colômbia o voto é facultativo), Santos levou 25 pontos de vantagem sobre Mockus. O surpreendente resultado --já que as pesquisas indicavam os dois candidatos em empate técnico-- foi o empurrão que Santos precisava para conquistar o posto de favorito e colocar um "Governo de união nacional", proposta à qual nas últimas semanas aderiram quase que a totalidade das forças políticas nacionais

O primeiro foi o Partido Conservador, que integrou à coalizão de Uribe; depois uma importante facção dos liberais, na oposição nos últimos oito anos; e, por último, Mudança Radical, liderado por Germán Vargas Lleras, que foi o terceiro mais votado nas eleições passadas.

Se chegar a Presidência em 7 de agosto, data programada para a posse, o candidato governista teria o apoio de mais de 80% do Congresso, ou seja, de 232 dos 268 integrantes das duas câmaras, um apoio maior do que Uribe teve em seus dois governos consecutivos.

Diante desse panorama, o ex-ministro da Defesa se mostrou confiante em que poderá fazer as reformas pendentes de Uribe; mas o que deu a Santos o último empurrão para que na Colômbia já se dê por certa sua vitória foi a operação militar na qual foram resgatados no domingo (13) quatro militares reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) nas selvas do sul do país.

O resgate do general Luis Mendieta, os coronéis Enrique Murillo e William Donato e o sargento Arbey Delgado, na "Operação Camaleão", coordenada diretamente pelo presidente Uribe, lembrou os sucessos de Santos na luta contra as Farc durante sua gestão no Ministério da Defesa. Santos foi o artífice da "Operação Xeque", deflagrada em julho de 2008, quando foram libertados 15 sequestrados, entre eles a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e mais três americanos.

Combate às Farc

Meses antes da libertação de Betancourt, em março de 2008, Santos havia dirigido a "Operação Fénix", um ataque a um acampamento das Farc no Equador que acabou com a vida do segundo no comando da guerrilha, Raúl Reyes. Ao mesmo tempo em que a missão militar levou à ruptura de relações diplomáticas com o país vizinho, representou o princípio do fim da então cúpula guerrilheira, já que no mês seguinte morreu de infarto seu fundador, "Manuel Marulanda".

O governo colombiano acredita que o combate às Farc resultou na redução de mais da metade do efetivo da guerrilha, embora 19 militares e um número não informado de civis permaneçam sequestrados. Apesar de adotar um tom menos rigoroso do que o adversário, Mockus promete que não irá dialogar com os guerrilheiros e manterá a política de combate ostensivo.

Na análise do especialista em História e Relações Internacionais Carlos Eduardo Vidigal, da Universidade de Brasília (UnB), "o eleitorado colombiano sinalizou no primeiro turno que quer manter as políticas de segurança e mesmo sociais do governo Uribe, em claro posicionamento “continuísta”. "Esse conservadorismo é tradicional na sociedade colombiana, reforçado pelos traumas enfrentados nas últimas décadas em virtude das ações das guerrilhas de esquerda e dos paramilitares", afirmou Vidigal.
No mesmo sentido, a especialista em Economia Social e Desenvolvimento da América Latina Anapaula Iacovino Davila, da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), considerou que os colombianos "não gostam de ver o nome de seu país diretamente associado ao tráfico de drogas, às guerrilhas, ao terrorismo". Por isso, é a "autoestima do colombiano" que está em jogo nestas votações. "Os colombianos reconhecem que muito foi feito, mas que ainda há muito que fazer. A expectativa é de continuidade".

A favor do atual governo, pesa também o declínio na produção e nas exportações de cocaína e a diminuição pela metade dos homicídios no país --embora a Colômbia ainda seja o maior produtor mundial de cocaína e esteja entre os 10 países mais violentos do mundo.

Política Externa

O enfrentamento aos guerrilheiros e ao narcotráfico teve a contribuição direta dos Estados Unidos, que participaram ativamente da execução do “Plano Colômbia”, elaborado em 2000 e orçado em US$ 10 bilhões. O plano permitiu aos norte-americanos instalarem oito bases militares no país andino, fato rendeu críticas pesadas à Colômbia por parte de seus vizinhos.

Embora a aproximação com os EUA tenha permitido que os investimentos internacionais na Colômbia quintuplicassem, trouxe como consequência um certo isolamento do país no cenário sul-americano. As trocas comerciais com a Venezuela, por exemplo, despencaram desde meados de 2009, quando o presidente Hugo Chávez criticou a participação militar norte-americana no território colombiano e, como resposta, foi acusado por Uribe de auxiliar as Farc na obtenção de armamentos.

Também permanecem abaladas as relações com o Equador desde a invasão do Exército colombiano ao território equatoriano no episódio do ataque à guerrilha, em 2008. Durante a campanha eleitoral, Mockus classificou a ação no Equador de “absolutamente equivocada” e chegou até a elogiar Chávez, sinalizando que, se eleito, pode amenizar a relação com os vizinhos. “[Com Mockus], haveria uma maior garantia que as relações com a Venezuela seriam melhoradas e, consequentemente, se harmonizaria ainda mais as relações com o Brasil”, afirma Gerson Arias, da Fundação Ideas para La Paz.

Na avaliação de analistas, independente de quem seja o sucessor de Uribe, terá que buscar uma aproximação maior com os vizinhos. “Santos pode ser mais diplomático com os vizinhos. Mas não deixará de lado a dependência dos Estados Unidos, que custa cerca de US$ 700 milhões por ano”, escreveu Julia Sweig, do Council on Foreign Relations, com sede em Nova York. “O que ele não fará é, sem a alta popularidade de Uribe, manter um discurso belicoso contra Chávez ou Rafael Correa (presidente do Equador). Vai conversar.”

Mistéria e desigualdade persistem

Já para Virgílio Arraes, doutor em história pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, apesar de ter obtido sucesso na sua empreitada para reduzir a atuação das Farc, o presidente colombiano não foi capaz de diminuir a miséria e a desigualdade social no país.

“Basicamente, a grande realização de Uribe foi reduzir a atuação dos chamados grupos de esquerda --que para alguns são grupos terroristas. No entanto, durante o seu governo, a Colômbia teve um crescimento econômico muito baixo, em torno de 2% ao ano, e a desigualdade social se manteve. Mais de 40% da população colombiana vive em torno da linha da pobreza”, disse o pesquisador.

Os principais indicadores confirmam a afirmação de Arraes: o índice de Gini, que mede o nível de desigualdade social, na Colômbia era de 0,510 em 2000 --dois anos antes de Uribe assumir-- e saltou para 0,585, em 2008 (quanto mais perto do número 1, maior é a desigualdade). Entre 2002 e 2009, o país caiu oito posições no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), ocupando, atualmente, a 77ª posição, atrás de Brasil e Venezuela, que antes do governo Uribe estavam atrás da Colômbia nessa lista.


Nome oficial: República da Colômbia
Forma de governo: República (Poder Executivo domina a estrutura de governo)
Capital: Bogotá
Divisão administrativa: 32 departamentos e 1 distrito capital
População: 43.677,372
Idioma: Espanhol
Grupos etnicos: Mestiços 58%, brancos 20%, mulatos 14%, negros 4%, cafuzos 3% e indígenas 1%
Religiões: Católicos Romanos 90% e outros 10%
Fonte: CIA Factbook 2009

No mesmo período, o PIB (Produto Interno Bruto) colombiano cresceu num ritmo bem inferior ao brasileiro, peruano e venezuelano. Em contrapartida, o atual governo da Colômbia conseguiu reduzir o desemprego de 17% a 12% da população e permitiu que os investimentos estrangeiros no país quintuplicassem.

Direitos Humanos

Apesar do apoio de boa parte da população, a forma como se deu o enfrentamento à guerrilha de esquerda é alvo de críticas de organizações não-governamentais, que acusam o governo colombiano de promover o assassinato de civis, espionar inocentes e influenciar o poder judiciário para conquistar o seu objetivo de acabar com as Farc.

Em relatório divulgado neste ano, a Anistia Internacional diz que “o conflito interno continua a ter consequências devastadoras para a população civil, em especial para comunidades indígenas”. “Todas as partes envolvidas --incluindo forças de segurança, grupos guerrilheiros e paramilitares-- são responsáveis por sérios abusos contra os direitos humanos e violações da lei humanitária internacional”, diz.

A ONG afirma também que durante a chefia de Santos no Ministério da Defesa houve denúncias de diversas execuções de civis sob o pretexto de que seriam guerrilheiros, em casos que ficaram conhecidos como “falsos positivos”.

De acordo com Arraes, a política de enfrentamento às guerrilhas obrigou o deslocamento interno ou externo de aproximadamente 10% da população colombiana e provoca um número elevado de "desaparecidos", que seriam possíveis vítimas de grupos paramilitares de direita e do próprio Exército. "É uma situação sem paralelo na América do Sul. Estima-se que haja 50 mil desaparecidos e centenas de sequestrados. Isso ocorre em função da fragilidade que persiste no sistema político-administrativo e do Judiciário na Colômbia".

Fonte: UOL

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