sábado, 28 de março de 2009

Um ano de Raúl, mas com Fidel na sombra

As quantias perdidas em apostas sobre o desaparecimento físico ou político de Fidel Castro já devem somar centenas de milhares de dólares, sobretudo em Miami, ao se completar um ano da substituição do líder revolucionário por seu irmão Raúl.

O menor dos Castro manda na ilha desde 18 de fevereiro de 2008, dia da aposentadoria formal do mais velho. Governa no seu estilo, com uma equipe muito militar e dentro do esquema do Partido Comunista. Mas Fidel continua influindo. Não ordena, mas pesa: pelo que diz e pelos limites que impõe, de maneira implícita ou expressa.

A última prova da influência exercida pelo convalescente mas "muito ativo e ágil" líder cubano data de poucos dias, quando a presidente chilena e autora desses qualificativos sobre seu estado físico esteve na ilha em visita oficial. Em uma reflexão relativa ao encontro que acabava de ter com a própria Michelle Bachelet, Fidel fez uma análise histórica que quase causou um incidente diplomático com o país andino.

O ex-presidente lembrou que "a oligarquia chilena, vingativa e fascista, arrebatou da Bolívia a costa que lhe dava amplo acesso ao Pacífico". Assim, apoiou a reclamação histórica de La Paz para recuperar sua saída ao mar.

Bachelet expressou sua indignação assim que desembarcou em Santiago. Indicou que havia manifestado seu "incômodo" a Raúl e acrescentou: "Não aceitamos ingerências de terceiros em assuntos domésticos ou bilaterais". Antes, o chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, havia dito a seu homólogo chileno que não havia qualquer possibilidade de desautorizar o líder da revolução. De modo que a reflexão de Fidel, apesar de constituir uma opinião "estritamente pessoal" - como entendeu Bachelet e ele mesmo deixaria claro - colocou Cuba em verdadeiro apuro com um país amigo.

E as relações diplomáticas são exatamente um dos campos em que as coisas mais melhoraram na ilha desde que Raúl assumiu a chefia de governo. De uma política externa baseada na camaradagem com os amigos incondicionais da América Latina, África e Ásia, Cuba passou a praticar uma diplomacia mais construtiva e integrada, através da qual reforçou laços com quase todo o mundo. Destacam-se os vínculos renovados com China, Rússia e Brasil, apoiados por acordos e visitas, assim como o degelo e o reinício do diálogo com a UE.

Inclusive a velha inimizade com Washington hoje está em questão depois da chegada de Barack Obama, pelo menos como não estava desde Clinton e Carter. Raúl demonstrou várias vezes seu desejo de negociar uma saída para o conflito bilateral, desde que se faça "de igual para igual e sem unilateralismos".

Mas o bom clima com Obama encontra um limite claro na predisposição de Fidel, que não parece tão boa como a de Raúl. O irmão mais velho demonstrou isso há algumas semanas, quando acusou Obama de "compartilhar o genocídio contra os palestinos" e de incorrer em "soberba e abuso" por não devolver a Cuba a base naval de Guantánamo.

Fidel Castro, que de um modo ou de outro passou 50 de seus 82 anos no poder, ainda é o primeiro-secretário do PC, comandante-em-chefe e conselheiro máximo do presidente por acordo parlamentar. Tudo isso continua pesando na política de Raul, que no âmbito doméstico não realizou até agora as expectativas de reforma que trouxe consigo há um ano.

As anunciadas "mudanças estruturais" e os novos investimentos estrangeiros não aparecem. O levantamento ou alívio das proibições parecem suspensos. A entrega de terras aos agricultores particulares é lenta. A modernização da economia não chega, como também não o rodízio de gerações... Não será porque Raúl e sua equipe não queiram ou porque não trabalhem. Deve ser, segundo opinião quase unânime, que as circunstâncias, as resistências à mudança e algumas pessoas que não deixam.

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