sábado, 28 de março de 2009

Anthony Giddens - Recessão, mudança climática e a volta do planejamento

A mudança climática e como responder a ela são assuntos dos noticiários do momento. Assim como, é claro, a recessão econômica, que também é global e profundamente preocupante. Mas qual é a relação entre as duas?

Toda crise é potencialmente um estímulo para lado o positivo da personalidade -é uma oportunidade de começar novamente, disse Sigmund Freud. Esse ponto não passou despercebido pelos líderes políticos. Depois do exemplo do presidente Obama nos EUA, muitos endossaram a idéia de um New Deal da mudança climática. O investimento em tecnologias de baixo carbono, o isolamento de prédios e o transporte público podem dar uma importante contribuição para a economia mover-se novamente, é o raciocínio.

Nick Stern, autor do celebrado Relatório Stern da economia da mudança climática, argumenta que tais medidas devem envolver pelo menos 20% dos fundos dos planos de recuperação. As propostas de Obama são menores que isso, mas alguns países estão alocando muito mais. A Coreia do Sul, por exemplo, está dedicando nada menos do que dois terços de seu pacote de recuperação para tais fins.

Eu apóio a idéia de um New Deal de mudança climática e espero que produza o dobro de benefícios propostos -o triplo de benefício, de fato, se os países conseguirem também reduzir sua dependência sobre o petróleo importado. Ainda assim, o efeito estimulante levantado por Freud deve nos unir em pensamento e ação em uma frente muito mais ampla.

Estamos no limiar de uma importante revolução, o fim da economia do combustível fóssil; agora é hora de tentar pensar em suas implicações prováveis. Essas vão desde questões triviais e mundanas até as mais amplas e especulativas.

Do lado trivial, uma importante preocupação tem que ser com empregos. Segundo seus defensores, o New Deal de mudança climática deve criar novos empregos por si mesmo. Não tenho tanta certeza disso. Será que significa, como teria que significar, a criação de empregos líquidos- ou seja, números maiores do que existiam antes? Quando mais energia for produzida de fontes de baixo carbono e quanto mais a eficiência energética aumentar, alguns trabalhadores nas indústrias baseadas em combustíveis fósseis, tais como minas de carvão, ficarão sem trabalho. A maior parte das inovações tecnológicas reduz, em vez de aumentar, a necessidade de força de trabalho.

Os empregos serão criados não tanto pelas tecnologias renováveis quanto pelas mudanças de estilo de vida provocadas pelas questões de mudança climática e segurança energética. As sensibilidades vão mudar e, com elas, os gostos. A nova economia que emergirá será ainda mais radicalmente pós-industrial do que a que temos hoje. Caberá aos empresários identificar as oportunidades econômicas que virão com a expansão -como foram encontradas formas de revitalizar as regiões portuárias onde a indústria de navegação evaporou-se.

Enquanto ponderamos de que forma deve ser a recuperação da recessão, devemos pensar seriamente sobre a natureza do próprio crescimento econômico, ao menos nos países ricos. Sabe-se há muito tempo que, acima de certo nível de prosperidade, o crescimento não necessariamente leva a um maior bem-estar pessoal e social. Agora é a hora de introduzir medidas mais completas de bem-estar junto com o PIB e dar a elas verdadeira ressonância política. Agora é a hora de uma crítica sustentada e positiva do consumismo, com peso político. Agora é hora de trabalhar para uma recuperação que não signifique uma reversão para a sociedade de muito dinheiro.

O período da desregulamentação de Thatcher acabou. O Estado voltou. Precisaremos de uma política industrial ativa e planejamento, em relação às instituições econômicas e também para a mudança climática e política energética.

Os erros feitos por gerações anteriores de planejadores, entretanto, têm que ser evitados. Muitas questões se apresentam. Tome o exemplo da tecnologia renovável. São necessários avanços tecnológicos para que, em algum ponto, os combustíveis fósseis tornem-se história. Ainda assim, como os governos devem decidir quais apoiar? Como eles podem lidar com o fato que as mais radicais inovações tecnológicas- tais como a Internet- muitas vezes não são previstas por ninguém?

Temos que encontrar um novo papel para o governo, mas também para mecanismos de mercado. Instrumentos financeiros complexos subitamente sairão de moda, culpados pelo colapso do mercado. Ainda assim, teremos a necessidade deles porque, propriamente regulados, algumas vezes são de fato chave para o investimento de longo prazo, em vez de uma força contrária.

Considere a questão do seguro contra eventos climáticos extremos, tais como os furacões no Caribe. Tais episódios vão se tornar mais frequentes e mais intensos, já que a mudança climática, até certo ponto, certamente ocorrerá. Prover seguro contra danos será uma forma importante de se adaptar a ela -especialmente quando pessoas mais pobres são envolvidas. A indústria de seguros privada terá que fornecer a maior parte do capital, já que dadas suas muitas obrigações só pode ser a seguradora do último recurso.

E depois, bem, há o avô da coisa toda, a globalização, que progrediu rapidamente sem controles internacionais adequados. A regulamentação eficaz dos mercados financeiros mundiais é essencial para o futuro. Talvez ajude a pavimentar o caminho para a colaboração, essencial para lidar com a mudança climática -muito tem que ser repensado neste quesito, enquanto 200 nações se preparam para as reuniões patrocinadas pela ONU em Copenhague em dezembro. A crise financeira e suas consequências deram uma sacudida nas formas estabelecidas de pensar que deve se provar muito importante. Estamos no final do final da história.

* Anthony Giddens, sociólogo e guru do "terceiro caminho" de Tony Blair, é ex-diretor da Escola de Economia de Londres. Seu novo livro, "The Politics of Climate Change" (A política da mudança climática), será publicado pela Polity Press no dia 20 de março.

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