Sonetos

1

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.

Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades, quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são, e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.

2

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que o Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.

3

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Num'hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um'hora.

Se me pergunta alguém porque assi ando,
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

4

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples, busca a forma.

5

Passo por meus trabalhos tão isento
De sentimento, grande nem pequeno,
Que, só pela vontade com que peno,
Me fica Amor devendo mais tormento.

Mas vai-me Amor matando tanto a tento,
Temparando a triaga co veneno,
Que do penar a ordem desordeno,
Porque não mo consente o sofrimento.

Porém, se esta fineza o Amor sente,
E pagar-me meu mal com mal pretende,
Torna-me com prazer como ao sol neve.

Mas se me vê cos males tão contente,
Faz-se avaro da pena, porque entende
Que, quanto mais me paga, mais me deve.

6

À morte de D. Antônio de Noronha

Em flor vos arrancou de então crescida
(Ah! Senhor dom Antônio!) a dura sorte,
Donde fazendo andava o braço forte
A fama dos Antigos esquecida;

Uma só razão tenho conhecida,
Com que tamanha mágoa se conforte:
Que, pois no mundo havia honrada morte,
Que não podíeis ter mais larga a vida.

Se meus humildes versos podem tanto,
Que co desejo meu se iguale a arte,
Especial matéria me sereis.

E, celebrado em triste e longo canto,
Se morrestes nas mãos do fero Marte,
Na memória das gentes vivereis.

7

Num jardim adornado de verdura,
A que esmaltam por cima várias flores,
Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.

Diana tomou logo uma rosa pura,
Vênus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violas, na graça e fermosura.

Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual daquelas três flores tomaria,
Por mais suave, pura e mais fermosa.

Sorrindo-se, o Menino lhe tornava:
-- Todas fermosas são; mas eu queria
Viol' antes que lírio nem que rosa.

8

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes, nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê:

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê.

9

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto,
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já me não fica mais de resto.

Assi que a vida e alma e esperança
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo:

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.

10

Quando da bela vista e doce riso
Tomando estão meus olhos mantimento,
Tão enlevado sinto o pensamento
Que me faz ver na terra o Paraíso.

Tanto do bem humano estou diviso,
Que qualquer outro bem julgo por vento;
Assi que em caso tal, segundo sento,
Assaz de pouco faz quem perde o siso.

Em vos louvar, Senhora, não me fundo,
Porque, quem vossas cousas claro sente,
Sentirá que não pode merecê-las.

Que de tanta estranheza sois ao mundo,
Que não é de estranhar, Dama excelente,
Que quem vos fez fizesse céu e estrelas.

11

Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou Fortuna roubadora,
Deixai-me repousar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n'alma larga história
Deste passado bem que nunca fora,
Ou fora, e não passara, mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! Quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.

12

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

13

Num bosque que das Ninfas se habitava,
Sílvia, Ninfa linda, andava um dia
Subida numa árvore sombria,
As amarelas flores apanhava.

Cupido, que ali sempre costumava
A vir passar a sesta à sombra fria,
Num ramo o arco e setas que trazia,
Antes que adormecesse, pendurava.

A Ninfa, como idôneo tempo vira
Para tamanha empresa, não dilata,
Mas com as armas foge ao Moço esquivo.

As setas traz nos olhos, com que tira.
-- Ó pastores, fugi, que a todos mata,
Senão a mim, que de matar-me vivo.

14

Os reinos e os impérios poderosos
Que em grandeza no mundo mais cresceram
Ou por valor de esforço floresceram,
Ou por varões nas letras espantosos.

Teve Grécia Temístocles famosos,
Os Cipiões a Roma engrandeceram,
Doze pares a França glória deram,
Cides a Espanha, e Laras belicosos.

Ao nosso Portugal (que agora vemos
Tão diferente de seu ser primeiro)
Os vossos deram honra e liberdade.

E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
Do Braganção estado, há mil extremos
Iguais ao sangue e mores que a idade.

15

De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança,
Sinto vivo da morte o sentimento;
Não sei para que é ter contentamento,
Se mais há-de perder quem mais alcança.

Mas dou-vos esta firme segurança:
Que, posto que me mate meu tormento,
Pelas águas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança.

Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
Que com qualquer cous'outra se contentem;
Antes os esqueçais, que vos esqueçam.

Antes nesta lembrança se atormentem,
Que com esquecimento desmereçam
A glória que em sofrer tal pena sentem.

16

Cara minha inimiga, em cuja mão
Pôs meus contentamentos a Ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Porque me falte a mim consolação.

Eternamente as águas lograrão
A tua peregrina fermosura,
Mas, enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te acharão;

E se meus rudos versos podem tanto,
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor tão puro e verdadeiro,

Celebrada serás sempre em meu canto,
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Será minha escritura teu letreiro.

17

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se duma outra vontade
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que, de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

18

Se quando vos perdi, minha esperança,
A memória perdera juntamente
Do doce bem passado e mal presente,
Pouco sentira a dor de tal mudança.

Mas Amor, em quem tinha confiança,
Me representa mui miudamente
Quantas vezes me vi ledo e contente,
Por me tirar a vida esta lembrança.

De cousas de que não havia sinal,
Por as ter postas já em esquecimento,
Destas me vejo agora perseguido.

Ah, dura estrela minha! ah, grão tormento!
Que mal pode ser mor que, no meu mal,
Ter lembrança do bem que é já perdido?

19

Em fermosa Letéia se confia,
Por onde vaidade tanto alcança
Que, tornada em soberba a confiança,
Com os deuses celestes competia.

Por que não fosse avante esta ousadia
(Que nascem muitos erros da tardança),
Em efeito puseram a vingança,
Que tamanha doudice merecia.

Mas Oleno, perdido por Letéia,
Não lhe sofrendo Amor que suportasse
Castigo duro tanta fermosura,

Quis padecer em si a pena alheia;
Mas, por que a morte Amor não apartasse,
Ambos tornados são em pedra dura.

20

Males que contra mi vos conjurastes,
Quanto há de durar tão duro intento?
Se dura porque dura meu tormento,
Baste-vos quanto já me atormentastes.

Mas se assi perfiais, porque cuidastes
Derrubar meu tão alto pensamento?
Mais pode a causa dele, em que o sustento,
Que vós, que dela mesma o ser tomastes.

E pois vossa tenção com minha morte
Há-de acabar o mal destes amores,
Dai já fim a um tormento tão comprido,

Porque de ambos contentes seja a sorte:
Vós, porque me acabastes, vencedores;
E eu, porque acabei, de vós vencido.

21

Está-se a Primavera trasladando
Em vossa vista deleitosa e honesta;
Nas lindas faces, olhos, boca e testa,
Boninas, lírios, rosas debuxando.

De sorte, vosso gesto matizando,
Natura quanto pode manifesta,
Que o monte, o campo, o rio e a floresta
Se estão de vós, Senhora, namorando.

Se agora não quereis que quem vos ama
Possa colher o fruito destas flores,
Perderão toda a graça vossos olhos.

Porque pouco aproveita, linda Dama,
Que semeasse Amor em vós amores,
Se vossa condição produze abrolhos.

22

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel, lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: -- Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.

23

Está o lascivo e doce passarinho
Com o biquinho as penas ordenando,
O verso sem medida, alegre e brando,
Expedindo no rústico raminho.

O cruel caçador (que do caminho
Se vem, calado e manso, desviando)
Na pronta vista a seta endireitando,
Lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

Destarte o coração, que livre andava
(Posto que já de longe destinado),
Onde menos temia foi ferido.

Porque o Frecheiro cego me esperava,
Para que me tomasse descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.

24

Pede o desejo, Dama, que vos veja;
Não entende o que pede, está enganado;
É este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa a qual natural seja,
Que não queira perpétuo seu estado;
Não quer, logo, o desejo o desejado,
Porque não falte nunca onde sobeja.

Mas este puro afeito em mim se dana,
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da Natureza,

Assi o pensamento (pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre, humana)
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.

25

Por que quereis, Senhora, que ofereça
A vida a tanto mal como padeço?
Se vos nasce do pouco que mereço,
Bem por nascer está quem vos mereça.

Sabei que enfim, por muito que vos peça,
Que posso merecer quanto vos peço,
Que não consente Amor que em baixo preço
Tão alto pensamento se conheça.

Assi que a paga igual de minhas dores
Com nada se restaura, mas deveis-ma,
Por ser capaz de tantos desfavores.

E se o valor de vossos servidores
Houver de ser igual convosco mesma,
Vós só convosco mesma andai d'amores.

26

Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mi vossas cruezas,
Que aqui tendes uma alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
Desprezos, desfavores e asperezas,
Que mores sofrimentos e firmezas
Sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vossos olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda,
Mas porei por escudo o coração.

Porque em tão dura e áspera contenda,
É bem que, pois não acho defensão,
Com me meter nas lanças me defenda.

27

Quando o Sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
Ao longo de uma praia deleitosa,
Vou na minha inimiga imaginando.

Aqui a vi os cabelos concertando,
Ali co'a mão na face, tão fermosa,
Aqui falando alegre, ali cuidosa,
Agora estando queda, agora andando.

Aqui esteve sentada, ali me viu,
Erguendo aqueles olhos tão isentos;
Aqui movida um pouco, ali segura;

Aqui se entristeceu, ali se riu.
Enfim, nestes cansados pensamentos
Passo esta vida vã, que sempre dura.

28

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso.

Um despejo quieto e vergonhoso,
Um repouso gravíssimo e modesto,
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura,
Um medo sem ter culpa, um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

29

Tomou-me vossa vista soberana
Adonde tinha as armas mais à mão,
Por mostrar que quem busca defensão
Contra esses belos olhos, que se engana.

Por ficar da vitória mais ufana,
Deixou-me armar primeiro da Razão:
Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não val defensa humana.

Mas porém, se vos tinha prometido
O vosso alto destino esta vitória,
Ser-vos tudo bem pouco está sabido;

Que, posto que estivesse apercebido,
Não levais de vencer-me grande glória;
Maior a levo eu de ser vencido.

30

-- Não passes, caminhante. -- Quem me chama?
-- Uma memória nova, e nunca ouvida,
Dum que trocou finita e humana vida,
Por divina, infinita e clara fama.

-- Quem é que tão gentil louvor derrama?
-- Quem derramar seu sangue não duvida
Por seguir a bandeira esclarecida
De um capitão de Cristo que mais ama.

-- Ditoso fim, ditoso sacrifício
Que a Deus se fez, e ao mundo juntamente!
Apregoando direi tão alta sorte.

-- Mais poderás contar a toda a gente
Que sempre deu sua vida claro indício
De vir a merecer tão santa morte.

31

Fermosos olhos que na idade nossa
Mostrais do Céu certíssimos sinais,
Se quereis conhecer quanto possais,
Olhai-me a mim, que sou feitura vossa:

Vereis que de viver me desapossa
Aquele riso com que a vida dais;
Vereis como de Amor não quero mais,
Por mais que o tempo corra e o dano possa;

E se dentro nest'alma ver quiserdes,
Como num claro espelho, ali vereis
Também a vossa, angélica e serena;

Mas eu cuido que, só por não me verdes,
Ver-vos em mim, Senhora, não quereis,
Tanto gosto levais de minha pena.

32

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que eu n'alma vejo,
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dous ardores se encendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
A apagar seus ardores e tormentos
Na vista de que o mundo tremer deve.

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela neve
Que queima corações e pensamentos.

33

Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos
Compostos em concerto desigual,
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
Regando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.

34

Quantas vezes do fuso se esquecia
Daliana, banhando o lindo seio,
Tantas vezes, de um áspero receio
Salteado, Laurênio a cor perdia.

Ela, que a Sílvio mais que a si queria,
Para podê-lo ver não tinha meio:
Ora, como curara o mal alheio
Quem o seu mal tão mal curar sabia?

Ele, que viu tão clara esta verdade,
Com soluços dizia (que a espessura
Comovia, de mágoa, a piedade):

-- Como pode a desordem da Natura
Fazer tão diferentes na vontade
A quem fez tão conformes na ventura?

35

Lindo e sutil trançado, que ficaste
Em penhor do remédio que mereço,
Se só contigo, vendo-te, endoudeço,
Que fora c'os cabelos que apertaste?

Aquelas tranças de ouro que ligaste,
Que os raios do Sol têm em pouco preço,
Não sei se para engano do que peço,
Se para me atar, os desataste.

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
E, por satisfação de minhas dores,
Como quem não tem outra, hei-de tomar-te;

E, se não for contente meu desejo,
Dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores,
Pelo todo também se toma a parte.

36

O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo à sua vida,
Música com voz alta e mui subida
Levanta pela praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada,
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assi, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando posto já no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei pelos vossos desfavores,
La vuestra falsa fe y el amor mio.

37

Pelos extremos raros que mostrou
Em saber Palas, Vênus em fermosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
África, Europa e Ásia as adorou.

Aquele saber grande, que ajuntou
Espírito e corpo em liga generosa,
Esta mundana máquina lustrosa
De só quatro Elementos fabricou.

Mas mor milagre fez a Natureza
Em vós, senhoras, pondo em cada uma
O que por todas quatro repartiu:

A vós seu resplandor deu Sol e Lua,
A vós, com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu.

38

Tomava Daliana, por vingança
Da culpa do pastor, que tanto amava,
Casar com Gil vaqueiro, e em si vingava
O erro alheio e pérfida esquivança.

A discrição segura, a confiança,
As rosas que seu rosto debuxava,
O descontentamento lhas secava,
Que tudo muda uma áspera mudança.

Gentil planta disposta em seca terra,
Lindo fruito de dura mão colhido,
Lembranças d'outro amor e fé perjura

Tornaram verde prado em dura serra;
Interesse enganoso, amor fingido
Fizeram desditosa a fermosura.

39

Grão tempo há já que soube da Ventura
A vida que me tinha destinada,
Que a longa experiência da passada
Me dava claro indício da futura.

Amor fero, cruel, Fortuna dura,
Bem tendes vossa força exp'rimentada;
Assolai, destruí, não fique nada,
Vingai-vos desta vida que inda dura.

Soube Amor, da Ventura, que a não tinha,
E, porque mais sentisse a falta dela,
De imagens impossíveis me mantinha.

Mas vós, Senhora, pois que minha estrela
Não foi melhor, vivei nesta alma minha,
Que não tem a Fortuna poder nela.

40

Se alguma hora em vós a piedade
De tão longo tormento se sentira,
Não consentira Amor que me partira
De vossos olhos, minha saudade.

Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que pelo natural n'alma vos tira,
Me faz crer que esta ausência é de mentira,
Mas inda mal, porém, porque é verdade.

Ir-me-ei, Senhora, e neste apartamento,
Tomarão tristes lágrimas vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento:

E assi darei vida a meu tormento,
Que enfim cá me achará minha lembrança,
Sepultado no vosso esquecimento.

41

Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano,
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde, e da esperança.

42

Tempo é já que minha confiança
Se desça de uma falsa opinião,
Mas Amor não se rege por razão;
Não posso perder logo a esperança,

A vida, si, que uma áspera mudança
Não deixa viver tanto um coração;
E eu na morte tenho a salvação?
Si, mas quem a deseja não a alcança,

Forçado é logo que eu espere e viva.
Ah, dura lei de Amor, que não consente
Quietação numa alma que é cativa!

Se hei-de viver, enfim, forçadamente,
Para que quero a glória fugitiva
De uma esperança vã que me atormente?

43

Amor, co'a esperança já perdida
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que queres mais de mim, que destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui alma, vida e esperança,
Despojos doces de meu bem passado,
Enquanto quis aquela que eu adoro:

Neles podes tomar de mim vingança;
E se inda não estás de mim vingado,
Contenta-te co'as lágrimas que choro.

44

Apolo e as nove Musas, discantando
Com a dourada lira, me influíam
Na suave harmonia que faziam,
Quando tomei a pena, começando:

"Ditoso seja o dia e hora, quando
Tão delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
Estar-se em seu desejo traspassando!"

Assi cantava, quando Amor virou
A roda à Esperança, que corria
Tão ligeira, que quase era invisível.

Converteu-se-me em noite o claro dia;
E, se alguma esperança me ficou,
Será de maior mal, se for possível.

45

Lembranças saudosas, se cuidais
De me acabar a vida neste estado,
Não vivo com meu mal tão enganado,
Que não espere dele muito mais.

De muito longe já me costumais
A viver de algum bem desesperado;
Já tenho co'a Fortuna concertado
De sofrer os trabalhos que me dais.

Atado ao remo tenho a paciência
Para quantos desgostos der a vida,
Cuide em quanto quiser o pensamento.

Que pois não há i outra resistência
Para tão certa queda da caída,
Aparar-lhe-ei debaixo o sofrimento.

46

Apartava-se Nise de Montano,
Em cuja alma, partindo-se, ficava;
Que o pastor na memória a debuxava,
Por poder sustentar-se deste engano.

Pelas praias do Índico Oceano
Sobre o curvo cajado se encostava,
E os olhos pelas águas alongava,
Que pouco se doíam de seu dano.

-- Pois com tamanha mágoa e saudade
De mim se foi -- dizia -- quem adoro,
Por testemunhas tomo Céu e estrelas;

Mas se em vós, ondas, mora piedade,
Levai também as lágrimas que choro,
Pois assi me levais a causa delas.

47

Quando vejo que meu destino ordena
Que, por me exp'rimentar, de vós me aparte,
Deixando de meu bem tão grande parte,
Que a mesma culpa fica grave pena;

O duro desfavor que me condena,
Quando pela memória se reparte,
Endurece os sentidos de tal arte,
Que a dor da ausência fica mais pequena.

Pois como pode ser que na mudança
Daquilo que mais quero estê tão fora
De me não apartar também da vida?

Eu refrearei tão áspera esquivança,
Porque mais sentirei partir, Senhora,
Sem sentir muito a pena da partida.

48

Náiades, vós que os rios habitais
Que os saudosos campos vão regando,
De meus olhos vereis estar manando
Outros, que quase aos vossos são iguais.

Dríades, vós que as setas atirais,
Os fugitivos cervos derrubando,
Outros olhos vereis que, triunfando,
Derrubam corações que valem mais.

Deixai as aljavas logo, e as águas frias,
E vinde, Ninfas minhas, se quereis
Saber como de uns olhos nascem mágoas;

Vereis como se passam em vão os dias,
Mas não vireis em vão, que cá achareis
Nos seus as setas, e nos meus as águas.

49

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

50

Se as penas com que Amor tão mal me trata
Quiser que tanto tempo viva delas,
Que veja escuro o lume das estrelas,
Em cuja vista o meu se acende e mata;

E se o tempo, que tudo desbarata,
Secar as frescas rosas sem colhê-las,
Mostrando a linda cor das tranças belas
Mudada de ouro fino em bela prata;

Vereis, Senhora, então também mudado
O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança:

Suspirareis então pelo passado,
Em tempo quando executar se possa
Em vosso arrepender minha vingança.

51

À sepultura del-Rei D. João III

-- Quem jaz no grão sepulcro que descreve
Tão ilustres sinais no forte escudo?
-- Ninguém, que nisso enfim se torna tudo,
Mas foi quem tudo pôde e tudo teve.

-- Foi Rei? -- Fez tudo quanto a Rei se deve;
Pôs na guerra e na paz devido estudo,
Mas quão pesado foi ao Mouro rudo
Tanto lhe seja agora a terra leve.

-- Alexandre será? -- Ninguém se engane,
Que sustentar, mais que adquirir se estima.
-- Será Adriano, grão senhor do mundo?

-- Mais observante foi da lei de cima.
-- É Numa? -- Numa não, mas é Joane,
De Portugal Terceiro, sem segundo.

52

Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas dos vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado,
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são, nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito traspassando,
Assi como um cristal o Sol traspassa.

53

-- Como fizeste, Pórcia, tal ferida?
Foi voluntária, ou foi por inocência?
-- Mas foi fazer Amor experiência
Se podia sofrer tirar-me a vida.

-- E com teu próprio sangue te convida
A não pores à vida resistência?
-- Ando-me acostumando à paciência,
Porque o temor a morte não impida.

-- Pois por que comes logo fogo ardente,
Se a ferro te costumas? -- Porque ordena
Amor que morra e pene juntamente.

-- E tens a dor do ferro por pequena?
-- Si: que a dor costumada não se sente.
E eu não quero a morte sem a pena.

54

Resposta do Autor a um soneto,
pelos mesmos consoantes

De tão divino acento e voz humana,
De tão doces palavras peregrinas,
Bem sei que minhas obras não são dinas,
Que o rudo engenho meu me desengana;

Mas de vossos escritos corre e mana
Licor que vence as águas cabalinas,
E convosco do Tejo as flores finas
Farão inveja à cópia mantuana.

E pois a vós de si não sendo avaras,
As filhas de Mnemósine fermosa
Partes dadas vos tem ao mundo caras,

A minha Musa e a vossa tão famosa,
Ambas posso chamar ao mundo raras,
A vossa de alta, a minha de invejosa.

55

À sepultura de D. Fernando de Castro

Debaixo desta pedra está metido,
Das sanguinosas armas descansado,
O capitão ilustre, assinalado,
Dom Fernando de Castro esclarecido.

Por todo o Oriente tão temido,
E da inveja da fama tão cantado,
Este, pois, só agora sepultado,
Está aqui já em terra convertido.

Alegra-te, ó guerreira Lusitânia,
Por este Viriato que criaste,
E chora-o, perdido, eternamente.

Exemplo toma nisto de Dardânia,
Que, se a Roma co ele aniquilaste,
Nem por isso Cartago está contente.

56

Vossos olhos, Senhora, que competem
Co Sol em fermosura e claridade,
Enchem os meus de tal suavidade
Que em lágrimas, de vê-los, se derretem.

Meus sentidos vencidos se sometem
Assi cegos a tanta divindade,
E da triste prisão, da escuridade,
Cheios de medo, por fugir remetem.

Mas se nisto me vedes, por acerto,
O áspero desprezo, com que olhais
Torna a espertar a alma enfraquecida.

Ó gentil cura e estranho desconcerto!
Que fará o favor que vós não dais,
Quando o vosso desprezo torna a vida?

57

Pois meus olhos não cansam de chorar
Tristezas, que não cansam de cansar-me,
Pois não abranda o fogo em que abrasar-me
Pôde quem eu jamais pude abrandar;

Não canse o cego Amor de me guiar
A parte donde não saiba tornar-me,
Nem deixe o mundo todo de escutar-me
Enquanto me a voz fraca não deixar.

E se em montes, rios, ou em vales,
Piedade mora, ou dentro mora Amor
Em feras, aves, prantas, pedras, águas,

Ouçam a longa história de meus males
E curem sua dor com minha dor;
Que grandes mágoas podem curar mágoas.

58

Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
Que a guarde, sob pena de enojar-vos;
Que a fé, que me obriga a tanto amar-vos,
Fará que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
E dentro na minh' alma contemplar-vos;
Que, se assi não chegar a contentar-vos,
Ao menos que não chegue a aborrecer-vos.

E se essa condição cruel e esquiva
Que me deis lei de vida não consente,
Dai-ma, Senhora, já, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva
Sem saber como vivo tristemente,
Mas contente porém de minha sorte.

Sonetos da Edição 1595

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