Sonetos de autoria Contestada

140

Todo o animal da calma repousava,
Só Liso o ardor dela não sentia,
Que o repouso do fogo em que ardia
Consistia na Ninfa que buscava.

Os montes parecia que abalava
O triste som das mágoas que dizia,
Mas nada o duro peito comovia,
Que na vontade de outrem posto estava.

Cansado já de andar pela espessura,
No tronco de uma faia, por lembrança,
Escreveu estas palavras de tristeza:

"Nunca ponha ninguém sua esperança
Em peito feminil, que de natura
Somente em ser mudável tem firmeza."

141

Doces águas e claras do Mondego,
Doce repouso de minha lembrança,
Onde a comprida e pérfida esperança
Longo tempo após si me trouxe cego,

De vós me aparto, mas porém não nego
Que inda a memória longa, que me alcança,
Me não deixa de vós fazer mudança,
Mas, quanto mais me alongo, mais me achego.

Bem pudera Fortuna este instrumento
D' alma levar por terra nova e estranha,
Oferecido ao mar remoto e vento.

Mas alma, que de cá vos acompanha,
Nas asas do ligeiro pensamento,
Para vós, águas, voa, e em vós se banha.

142

Eu me aparto de vós, Ninfas do Tejo,
Quando menos temia esta partida,
E, se minha alma vai entristecida,
Nos olhos o vereis com que vos vejo.

Pequenas esperanças, mal sobejo,
Vontade que a Razão leva vencida,
Asinha darão fim à triste vida,
Se vos não torno a ver como desejo.

Nunca a noite, entretanto, nunca o dia
Verá de mi partir vossa lembrança;
Amor que vai comigo o certifica.

Por mais que na tornada haja tardança,
Sempre me farão triste companhia
Saudades do bem que em vós me fica.

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Já a saudosa Aurora destoucava
Os seus cabelos de ouro delicados,
E as flores nos campos esmaltados
Do cristalino orvalho borrifava,

Quando o fermoso gado se espalhava
De Sílvio e de Laurente pelos prados,
Pastores ambos, e ambos apartados
De quem o mesmo Amor não se apartava.

Com verdadeiras lágrimas, Laurente
-- Não sei -- dizia -- ó Ninfa delicada,
Por que não morre já quem vive ausente,

Pois a vida sem ti não presta nada.
Responde Sílvio: -- Amor não o consente,
Que ofende as esperanças da tornada.

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-- Que levas, cruel Morte? -- Um claro dia.
-- A que horas o tomaste? -- Amanhecendo.
-- Entendes o que levas? -- Não o entendo.
-- Pois quem to faz levar? -- Quem o entendia.

-- Seu corpo quem o goza? -- A terra fria.
-- Como ficou sua luz? -- Anoitecendo.
-- Lusitânia que diz? -- Fica dizendo:
"Enfim, não mereci Dona Maria".

-- Mataste quem a viu? -- Já morto estava.
-- Que diz o cru Amor? -- Falar não ousa.
-- E quem o faz calar? -- Minha vontade.

-- Na Corte que ficou? -- Saudade brava.
-- Que fica lá que ver? -- Nenhuma cousa,
Mas fica que chorar sua beldade.

145

A perfeição, a graça, o doce jeito,
A Primavera cheia de frescura
Que sempre em vós floresce, a que a Ventura
E a Razão entregaram este peito;

Aquele cristalino e puro aspeto
Que em si compreende toda a fermosura,
O resplandor dos olhos e a brandura
De que o Amor a ninguém quis ter respeito;

S'isto, que em vós se vê, ver desejais,
Como digno de ver-se claramente.
Por muito que de Amor vos isentais,

Traduzido o vereis tão fielmente
No meio deste espírito onde estais
Que, vendo-vos, sintais o que ele sente.

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Aquela que, de pura castidade,
De si mesma tomou cruel vingança,
Por uma breve e súbita mudança
Contrária à sua honra e qualidade;

Venceu à fermosura a honestidade,
Venceu no fim da vida a esperança,
Porque ficasse viva tal lembrança,
Tal amor, tanta fé, tanta verdade.

De si, da gente e do mundo esquecida,
Feriu com duro ferro o brando peito,
Banhando em sangue a força do tirano.

Estranha ousadia! Estranho feito!
Que, dando morte breve ao corpo humano,
Tenha sua memória larga vida!

147

Coitado, que em algum tempo choro e rio,
Espero, temo, e quero, e aborreço,
Juntamente me alegro e entristeço,
De uma cousa confio e desconfio.

Avôo sem asas, estou cego e guio,
E no que valho mais menos mereço;
Calando, vozes dou, falo e emudeço,
Nada me contradiz e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível,
Queria poder mudar-me, e estar quedo,
Usar de liberdade, e ser cativo;

Queria que visto fosse, e invisível,
Queria desenredar-me, e mais me enredo:
Tais são os extremos em que triste vivo!

148

Vós que escutais, em rimas derramado,
Dos suspiros o som que me alentava
Na juvenil idade, quando andava
Em outro, em parte, do que sou mudado,

Sabei que busca só do já cantado
No tempo em que ou temia ou esperava
De quem o mal provou, que eu tanto amava,
Piedade, e não perdão, o meu cuidado.

Pois vejo que tamanho sentimento
Só me rendeu ser fábula da gente
(Do que comigo mesmo me envergonho),

Sirva de exemplo claro meu tormento,
Com que todos conheçam claramente
Que quanto ao mundo apraz é breve sonho.

149

-- Que esperais, esperança? -- Desespero.
-- Quem disso a causa foi? -- U'a mudança.
-- Vós, vida, como estais? -- Sem esperança.
-- Que dizeis, coração? -- Que muito quero.

-- Que sentis, alma, vós? -- Que amor é fero.
-- E enfim, como viveis? -- Sem confiança.
-- Quem vos sustenta, logo? -- U'a lembrança.
-- E só nela esperais? -- Só nela espero.

-- Em que podeis parar? -- Nisto em que estou.
-- E em que estais vós? -- Em acabar a vida.
-- E tende-lo por bem? -- Amor o quer.

-- Quem vos obriga assi? -- Saber quem sou.
-- E quem sois? -- Quem de todo está rendida.
-- A quem rendida estais? -- A um só querer.

150

Ditosa pena, ditosa mão que a guia
Com tantas perfeições da sutil Arte,
Que, quando com razão venho a louvar-te,
Em teus louvores perco a fantasia.

Mas o Amor, que efeitos vários cria,
Me manda de ti cante em toda a parte,
Não em plectro belígero de Marte,
Mas em suave e branda melodia.

Teu nome, Emanuel, de um a outro pólo
Correndo, se levanta e te apregoa,
Agora que ninguém te levantava.

E porque imortal sejas, eis Apolo
Te oferece de flores a coroa
Que já de longo tempo te guardava.

Luís Vaz de Camões

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