Sonetos

59

Com grandes esperanças já cantei,
Com que os deuses no Olimpo conquistara;
Despois vim a chorar, porque cantara,
E agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
Custa-me esta lembrança só tão cara,
Que a dor de ver as mágoas que passara,
Tenho pela mor mágoa que passei.

Pois logo se está claro que um tormento
Dá causa que outro n'alma se acrescente,
Já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh Ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?

60

Em prisões baixas fui um tempo atado,
Vergonhoso castigo de meus erros;
Inda agora arrojando levo os ferros
Que a Morte a meu pesar tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
Que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
Vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
Parece-me que estava assi ordenado.

Contentei-me com pouco, conhecendo
Que era o contentamento vergonhoso,
Só por ver que cousa era viver ledo;

Mas minha estrela, que eu já agora entendo,
A Morte cega e o Caso duvidoso,
Me fizeram de gostos haver medo.

61

Ilustre e dino ramo dos Meneses,
Aos quais o prudente e largo Céu
(Que errar não sabe) em dote concedeu
Rompesse os maométicos arneses,

Desprezando a Fortuna e seus revezes,
Ide para onde o Fado vos moveu,
Erguei flamas no mar alto Eritreu
E sereis nova luz aos Portugueses.

Oprimi com tão firme e forte peito
O pirata insolente, que se espante
E trema Taprobana e Gadrosia;

Dai nova causa à cor do Arabo estreito:
Assi que o Roxo Mar, daqui em diante,
O seja só co sangue de Turquia!

62

No tempo que de Amor viver soía,
Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
Antes, agora livre, agora atado,
Em várias flamas variamente ardia.

Que ardesse num só fogo, não queria
O Céu, porque tivesse exp'rimentado
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.

E se algum pouco tempo andava isento,
Foi como quem co peso descansou
Por tornar a cansar com mais alento.

Louvado seja Amor em meu tormento,
Pois para passatempo seu tomou
Este meu tão cansado sofrimento.

63

Amor, que o gesto humano n' alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera num momento,
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.

64

Ferido sem ter cura perecia
O forte e duro Télefo temido,
Por aquele que n'água foi metido,
A quem ferro nenhum cortar podia.

Ao Apolíneo Oráculo pedia
Conselho para ser restituído;
Respondeu que tornasse a ser ferido
Por quem o já ferira, e sararia.

Assi, Senhora, quer minha ventura
Que, ferido de ver-vos claramente
Com vos tornar a ver Amor me cura.

Mas é tão doce vossa fermosura,
Que fico como hidrópico doente,
Que co beber lhe cresce mor secura.

65

Na metade do Céu subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavam
O verde pasto as cabras, e buscavam
A frescura suave da água fria;

Co a folha da árvore sombria,
Do raio ardente as aves se amparavam,
O módulo cantar, de que cessavam,
Só nas roucas cigarras se sentia;

Quando Liso pastor, num campo verde
Natércia, crua Ninfa, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama:

-- Porque te vás, de quem por ti se perde
Para quem pouco te ama? -- suspirava.
O Eco lhe responde: -- Pouco te ama.

66

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que para mim foi sonho nesta vida.

Lá numa soidade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro para ela e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: -- Não me fujais, sombra benina! --
Ela (os olhos em mim cum brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser)

Torna a fugir-me. E eu gritando: -- Dina...--
Antes que diga mene, acordo e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

67

Suspiros inflamados, que cantais
A tristeza com que eu vivi tão ledo,
Eu mouro e não vos levo, porque hei medo
Que ao passar do Lete vos percais.

Escritos para sempre já ficais
Onde vos mostrarão todos co dedo
Como exemplo de males, que eu concedo
Que para aviso de outros estejais.

Em quem, pois, virdes falsas esperanças
De Amor e da Fortuna, cujos danos
Alguns terão por bem-aventuranças,

Dizei-lhe que os servistes muitos anos,
E que em Fortuna tudo são mudanças,
E que em Amor não há senão enganos.

68

Aquela fera humana que enriquece
Sua presuntuosa tirania
Destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando cresce;

Se nela o Céu mostrou (como parece)
Quanto mostrar ao mundo pretendia,
Por que de minha vida se injuria?
Por que de minha morte se enobrece?

Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer-me e cativar-me:
Fazei disto no mundo larga história,

Que, por mais que vos veja maltratar-me,
Já me fico logrando desta glória
De ver que tendes tanta de matar-me.

69

Ditoso seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças,
Pois por elas não perde as esperanças
De poder n'algum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando ausente,
Não sente mais que a pena das lembranças,
Porque inda que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem o coração atormentado.

Mas triste quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão,
Sem ficar n'alma a mágoa do pecado.

70

O culto divinal se celebrava
No templo donde toda a criatura
Louva o Feitor divino, que a feitura
Com seu sagrado sangue restaurava.

Ali Amor, que o tempo me aguardava
Onde a vontade tinha mais segura,
Numa celeste e angélica figura
A vista da razão me salteava.

Eu, crendo que o lugar me defendia,
E meu livre costume não sabendo
-- Que nenhum confiado lhe fugia --,

Deixei-me cativar; mas já que entendo,
Senhora, que por vosso me queria,
Do tempo que fui livre me arrependo.

71

Leda serenidade deleitosa
Que representa em terra um paraíso;
Entre rubis e perlas, doce riso;
Debaixo de ouro e neve, cor de rosa;

Presença moderada e graciosa,
Onde ensinando estão despejo e siso
Que se pode por arte e por aviso,
Como por natureza, ser fermosa;

Fala de quem a morte e a vida pende,
Rara, suave enfim, Senhora, vossa;
Repouso nela alegre e comedido:

Estas as armas são com que me rende
E me cativa Amor, mas não que possa
Despojar-me da glória de rendido.

72

Bem sei, Amor, que é certo o que receio,
Mas tu, porque com isso mais te apuras,
De manhoso mo negas, e mo juras
No teu dourado arco, e eu to creio.

A mão tenho metida no teu seio,
E não vejo meus danos às escuras,
E tu, contudo, tanto me asseguras
Que me digo que minto e que me enleio.

Não somente consinto neste engano,
Mas inda to agradeço, e a mim me nego
Tudo o que vejo e sinto de meu dano.

Oh poderoso mal a que me entrego!
Que, no meio do justo desengano,
Me possa inda cegar um moço cego!

73

Como quando do mar tempestuoso
O marinheiro, lasso e trabalhado,
De um naufrágio cruel já salvo a nado,
Só ouvir falar nele o faz medroso,

E jura que, em que veja bonançoso
O violento mar e sossegado,
Não entre nele mais, mas vai forçado
Pelo muito interesse cobiçoso;

Assi, Senhora, eu, que da tormenta
De vossa vista fujo, por salvar-me,
Jurando de não mais em outra ver-me,

Minha alma, que de vós nunca se ausenta,
Dá-me por preço ver-vos, faz tornar-me
Donde fugi tão perto de perder-me.

74

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer,
É um andar solitário entre a gente,
É nunca contentar-se de contente,
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade,
É servir, a quem vence, o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

75

Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está, ou quem isento?
Que alma, que razão, que' entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida s'oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contino vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso:

Em mim podeis, Senhora, ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.

76

Ondados fios de ouro reluzente,
Que agora da mão bela recolhidos,
Agora sobre as rosas estendidos,
Fazeis que sua graça se acrescente;

Olhos, que vos moveis tão docemente,
Em mil divinos raios encendidos,
Se de cá me levais alma e sentidos,
Que fora, se de vós não fora ausente?

Honesto riso, que entre a mor fineza
De perlas e corais nasce e parece,
Se n'alma em doces ecos não o ouvisse?

Se imaginando só tanta beleza,
De si, em nova glória, a alma se esquece,
Que será quando a vir? Ah! quem a visse!

77

Foi já um tempo doce cousa amar,
Enquanto me enganava a esperança;
O coração com esta confiança
Todo se desfazia em desejar.

Ó vão, caduco e débil esperar!
Como se desengana uma mudança!
Que, quanto é mor a bem-aventurança,
Tanto menos se crê que há de durar.

Quem já se viu contente e prosperado,
Vendo-se em breve tempo em pena tanta,
Razão tem de viver bem magoado.

Porém, quem tem o mundo exper'mentado,
Não o magoa a pena, nem o espanta,
Que mal se estranhará o costumado.

78

Dos ilustres antigos que deixaram
Tal nome, que igualou fama à memória,
Ficou por luz do tempo a larga história
Dos feitos em que mais se assinalaram.

Se se com cousas destes cotejaram
Mil vossas, cada uma tão notória,
Vencera a menor delas a mor glória
Que eles em tantos anos alcançaram.

A glória sua foi, ninguém lha tome,
Seguindo cada um vários caminhos,
Estátuas levantando no seu Templo.

Vós, honra Portuguesa e dos Coutinhos,
Ilustre Dom João, com melhor nome
A vós encheis de glória, e a nós de exemplo.

79

Conversação doméstica afeiçoa,
Ora em forma de boa e sã vontade,
Ora de uma amorosa piedade,
Sem olhar qualidade de pessoa.

Se depois, porventura, vos magoa
Com desamor e pouca lealdade,
Logo vos faz mentira da verdade
O brando Amor, que tudo em si perdoa.

Não são isto que falo conjecturas
Que o pensamento julga na aparência,
Por fazer delicadas escrituras.

Metido tenho a mão na consciência,
E não falo senão verdades puras
Que me ensinou a viva experiência.

80

Esforço grande igual ao pensamento,
Pensamentos em obras divulgados,
E não em peito tímido encerrados
E desfeitos depois em chuva e vento;

Ânimo da cobiça baixa isento,
Digno, por isso só, de altos estados,
Fero açoute dos nunca bem domados
Povos do Malabar sanguinolento;

Gentileza de membros corporais
Ornados de pudica continência,
Obra por certo rara de natura:

Estas virtudes e outras muitas mais,
Dignas todas da Homérica eloqüência,
Jazem debaixo desta sepultura.

81

No mundo quis um tempo que se achasse
O bem por acerto ou sorte vinha;
E, por exp'rimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim se exp'rimentasse;

Mas porque meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado
Por ver se se mudava a sorte dura,
A vida pus nas mãos de um leve lenho;

Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
Já sei que deste meu buscar ventura,
Achado tenho já que não a tenho.

82

Vós que, de olhos suaves e serenos,
Com justa causa a vida cativais,
E que os outros cuidados condenais
Por indevidos, baixos e pequenos;

Se ainda do Amor domésticos venenos
Nunca provastes, quero que saibais
Que é tanto mais o amor depois que amais,
Quanto são mais as causas de ser menos.

E não cuide ninguém que algum defeito,
Quando na cousa amada se apresenta,
Possa diminuir o amor perfeito;

Antes o dobra mais; e, se atormenta,
Pouco e pouco o desculpa o brando peito,
Que Amor com seus contrários se acrescenta.

83

Que poderei do mundo já querer,
Que naquilo em que pus tamanho amor,
Não vi senão desgosto e desamor,
E morte, enfim, que mais não pode ser?

Pois vida me não farta de viver,
Pois já sei que não mata grande dor,
Se cousa há que mágoa dê maior,
Eu a verei, que tudo posso ver.

A morte a meu pesar me assegurou
De quanto mal me vinha; já perdi
O que perder o medo me ensinou.

Na vida desamor somente vi;
Na morte, a grande dor que me ficou:
Parece que para isto só nasci.

84

Pensamentos que agora novamente
Cuidados vãos em mim ressuscitais,
Dizei-me: ainda não vos contentais
De terdes quem vos tem tão descontente?

Que fantasia é esta, que presente
Cada hora ante meus olhos me mostrais?
Com sonhos e com sombras atentais
Quem nem por sonhos pode ser contente?

Vejo-vos, pensamentos, alterados,
E não quereis, de esquivos, declarar-me
Que é isto que vos traz tão enleados.

Não me negueis, se andais para negar-me,
Que, se contra mim estais alevantados,
Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.

85

Se tomar minha pena em penitência
Do erro em que caiu o pensamento,
Não abranda, mas dobra meu tormento,
A isto, e a mais obriga a paciência.

E se uma cor de morto na aparência,
Um espalhar suspiros vãos ao vento
Em vós não faz, Senhora, movimento,
Fique meu mal em vossa consciência.

E se de qualquer áspera mudança
Toda a vontade isenta Amor castiga
(Como eu vi bem no mal que me condena),

E se em vós não se entende haver vingança,
Será forçado (pois Amor me obriga)
Que eu só de vossa culpa pague a pena.

86

Os vestidos Elisa revolvia
Que lhe Enéias deixara por memória,
Doces despojos da passada glória,
Doces, quando seu Fado o consentia.

Entre eles a fermosa espada via
Que instrumento foi da triste história;
E, como quem de si tinha a vitória,
Falando só com ela, assi dizia:

-- Fermosa e nova espada, se ficaste
Só para executares os enganos
De quem te quis deixar, em minha vida,

Sabe que tu comigo te enganaste;
Que, para me tirar de tantos danos,
Sobeja-me a tristeza da partida.

87

Oh! Quão caro me custa o entender-te,
Molesto Amor, que, só por alcançar-te,
De dor em dor me tens trazido a parte
Onde em ti ódio e ira se converte!

Cuidei que, para em tudo conhecer-te,
Me não faltasse experiência e arte;
Agora vejo n'alma acrescentar-te
Aquilo que era causa de perder-te.

Estavas tão secreto no meu peito
Que eu mesmo, que te tinha, não sabia
Que me senhoreavas deste jeito.

Descobriste-te agora, e foi por via
Que teu descobrimento, e meu defeito,
Um me envergonha e outro me injuria.

88

Se, depois de esperança tão perdida,
Amor pela ventura consentisse
Que ainda alguma hora breve alegre visse
De quantas tristes viu tão longa vida,

Uma alma já tão fraca e tão caída,
Por mais alto que a sorte me subisse,
Não tenho para mim que consentisse
Alegria tão tarde consentida.

Não tão somente Amor me não mostrou
Uma hora em que vivesse alegremente,
De quantas nesta vida me negou,

Mas inda tanta pena me consente,
Que co contentamento me tirou
O gosto de alguma hora ser contente.

89

O raio cristalino se estendia
Pelo mundo, da Aurora marchetada,
Quando Nise, pastora delicada,
Donde a vida deixava, se partia.

Dos olhos, com que o Sol escurecia
Levando a vista em lágrimas banhada,
De si, do Fado e Tempo magoada,
Pondo os olhos no Céu, assi dizia:

-- Nasce, sereno Sol, puro e luzente;
Resplandece, fermosa e roxa Aurora,
Qualquer alma alegrando descontente:

Que a minha, sabe tu que, desde agora,
Jamais na vida a podes ver contente,
Nem tão triste nenhuma outra pastora.

90

No mundo poucos anos e cansados
Vivi, cheios de vil miséria dura;
Foi-me tão cedo a luz do dia escura,
Que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,
Buscando à vida algum remédio, ou cura,
Mas aquilo que enfim não quer ventura,
Não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
Pátria minha Alenquer, mas ar corrupto,
Que neste meu terreno vaso tinha,

Me fez manjar de peixes em ti, bruto
Mar, que bates na Abássia fera e avara,
Tão longe da ditosa pátria minha!

91

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
E, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos para um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes às vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

92

Verdade, Amor, Razão, Merecimento
Qualquer alma farão segura e forte,
Porém Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
Têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento,
E não sabe a que causa se reporte,
Mas sabe que o que é mais que vida e morte,
Que não o alcança o humano entendimento.

Doutos varões darão razões subidas,
Mas são experiências mais provadas
E por isso é melhor ter muito visto.

Cousas há i que passam sem ser cridas
E cousas cridas há, sem ser passadas;
Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.

93

Fiou-se o coração de muito isento
De si, cuidando mal que tomaria
Tão ilícito amor tal ousadia,
Tal modo nunca visto de tormento.

Mas os olhos pintaram tão a tento
Outros que visto têm na fantasia,
Que a razão, temerosa do que via,
Fugiu, deixando o campo ao pensamento.

-- Ó Hipólito casto, que de jeito,
De Fedra, tua madrasta, foste amado,
Que não sabia ter nenhum respeito,

Em mim vingou o Amor teu casto peito;
Mas está desse agravo tão vingado,
Que se arrepende já do que tem feito.

94

Quem quiser ver d'Amor uma excelência
Onde sua fineza mais se apura,
Atente onde me põe minha ventura,
Por ter de minha fé experiência.

Onde lembranças mata a longa ausência,
Em temeroso mar, em guerra dura,
Ali a saudade está segura,
Quando mor risco corre a paciência.

Mas ponha-me Fortuna e o duro Fado
Em nojo, morte, dano e perdição,
Ou em sublime e próspera ventura:

Ponha-me enfim em baixo ou alto estado,
Que até na dura morte me acharão
Na língua o nome, n'alma a vista pura.

95

A D. Leonis Pereira

Vós, Ninfas da gangética espessura,
Cantai suavemente em voz sonora
Um grande Capitão, que a roxa Aurora
Dos filhos defendeu da noite escura.

Ajuntou-se a caterva negra e dura
Que na Áurea Quersoneso afouta mora,
Para lançar do caro ninho fora
Aqueles que mais podem que a Ventura.

Mas um forte Leão, com pouca gente,
A multidão, tão fera como néscia,
Destruindo castiga e torna fraca.

Pois, ó Ninfas, cantai, que claramente
Mais do que fez Leônidas em Grécia,
O nobre Leonis fez em Malaca.

Sonetos da Edição 1598

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