Trauma por violência afeta 6% em São Paulo

"No período de um ano, de 6% a 10% da população da cidade de São Paulo sofre de um problema de saúde mental relacionado a algum episódio de violência." Com essa frase, o psiquiatra Jair Mari, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) resume o impacto que episódios como roubos e agressões têm sobre o comportamento dos paulistanos.

Os números saíram de um levantamento epidemiológico com 2.500 pessoas na capital paulista, articulado pelo pesquisador e realizado pelo Ibope. Mari é especialista em TEPT --transtorno do estresse pós-traumático-, expressão criada por psiquiatras americanos para caracterizar uma síndrome comum em veteranos de guerra e habitantes de zonas de conflito militar. Esse problema afeta os 6% dos paulistanos aos quais Mari se refere.

Cerca de um quinto dos indivíduos que passam por episódios como estupro ou seqüestro-relâmpago desenvolvem o TEPT, diz Mari. "A pessoa passa a ter 'flashbacks' da situação e a mente é invadida por pensamentos ou imagens do que aconteceu", descreve. "É como se houvesse uma desregulação da atividade mental da pessoa. Obsessivamente, ela passa a reviver aquelas imagens, como se fossem reais de novo, reagindo emocionalmente."

Os resultados preliminares da pesquisa, que foram apresentados em um seminário na Unifesp no sábado passado, serão somados também a um levantamento que o Ibope está fazendo no Rio de Janeiro, com mais 1.500 pessoas. Aqueles que relatam já ter passado por um episódio crítico de violência são convidados pelos pesquisadores a passar por mais uma bateria de exames.

A intenção, diz Mari, é ir além do levantamento epidemiológico. Com um projeto aprovado no programa Institutos do Milênio, do CNPq, Mari conseguiu reunir um pequeno exército de cientistas para aprofundar a análise do TEPT na realidade brasileira.

"Nós dividimos as áreas estudadas em vários estratos, de acordo com a taxa de homicídios em cada um deles, porque queremos também fazer um estudo 'ecológico'. Queremos relacionar a situação dos indivíduos com dados sociais."

À medida que o levantamento vem sendo feito, os entrevistadores do Ibope coletam também amostras de saliva, de onde serão extraídos dados de DNA. Na etapa final do projeto, pesquisadores farão um mapeamento para tentar descobrir quias genes podem influenciar a suscetibilidade ao estresse pós-traumático.

"O transtorno tem origem em muitos fatores, e cerca de 30% deles são genéticos", diz Camila Guindalini, geneticista que coordenará os testes na Unifesp. Segundo ela, será possível fazer análise genética em mais de 2.500 dos entrevistados, o que significaria o maior estudo já realizado sobre esse mal. "Não tenho conhecimento de nenhuma amostra tão grande e tão rica em detalhes", diz.

Comparando os genes das vítimas de estresse pós-traumático com o de pessoas que passaram por situações de violência mas não desenvolveram o trauma, o estudo pode ajudar orientar a pesquisa de novos medicamentos. Hoje, o tratamento receitado por psiquiatras é a terapia comportamental, mas mas com freqüência se usam antidepressivos. O método tem eficácia razoável, mas ainda não há drogas psiquiátricas com efeito mais específico sobre os sintomas do TEPT.

Além do DNA, os cientistas estão olhando para a fisiologia cerebral das pessoas que desenvolvem o transtorno. O grupo espera confirmar a tese de que o transtorno está ligado a uma redução no hipocampo, uma estrutura cerebral relacionada à memória. "Verificamos uma redução pequena, de cerca de 5% a 10%", diz Andréa Jackoswki, que coordena essa parte do estudo. Ainda não é possível, porém, saber se isso está envolvido na causa do transtorno ou se é sua conseqüência.

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